Lá estão os prédios decadentes isolados em áreas que antes foram de convívio humano. Essas paredes descascadas de uma arquitetura chapada, mais parecem prédios de repartição pública, tão sem graça mas que compõem um grande terror na história da humanidade. Esse conhecimento de que aquele solo está envenenado e cientificamente amaldiçoado por literalmente 24 mil anos, fazem de Chernobyl um lugar fascinante, tanto que virou série premiada no HBO. Sua área hoje é alvo de turismo, e aumentou em 40% graças ao seriado.

Esse capítulo sombrio da humanidade pode render muitas obras interessantes, assim como rendeu um bom número de jogos. Porém o ciclo de gameplay no mundo proposto em Chernobylite não deixa ele mesmo expandir sua mitologia de forma que seja prazeroso atravessar o game.

Chernobylite-cenarios

Igor Khymynuk é um ucraniano, ex-funcionário da usina onde o reator explodiu e causou os momentos de horror que bem conhecemos. No evento ele perde sua esposa Tatyana. Na realidade, ela se encontra perdida e depois de 30 anos, Igor retorna ao local para achar respostas sobre esse desaparecimento, já que o fantasma de Tatyana não deixa sua mente em paz.

Junto dele temos os contratados para ajudar nessa invasão, que não será nada simples, já que a Zona de Exclusão neste universo se desenvolveu de forma bem mais perigosa do que a realidade – como se morrer de câncer não fosse suficiente.

Chernobylite começa promissor como um jogo de terror em FPS, como é indicado em sua descrição oficial. Mas logo  ele se revela como um jogo baseado em coleta de materiais e furtividade entre humanos em sua maioria, não que encontros sobrenaturais não sejam abundantes.

A estrutura do jogo é de se enviar a áreas diversas, diretamente de sua base, quase como uma homenagem direta a Fallout 4, incluindo a rápida limpeza de entulhos que viram recursos. Em sua base, você pode fabricar vários objetos de melhoria estética, mas principalmente funcional.  Junto com Igor, você acha novos ajudantes para a base.

Chernobylite-lixo

O jogo até tenta fazer um suspense com alguns candidatos espalhados pela vasta mata doente de Chernobyl, mas fica óbvio que são candidatos a morar no seu cafofo central.  Você e todas essas pessoas precisam de recursos como comida e manter a sanidade mental.

Você pode perder sanidade simplesmente matando seus inimigos. Até a forma com que você fornece energia e acaba com lâmpadas piscando nas áreas do abrigo, pode melhorar a psique das pessoas. Gerenciar mal essas pessoas, como deixá-las com fome, pode resultar em deserção. Do alto de sua base você escolhe áreas de exploração para o dia.

São micro missões que  aparecem e ficam por tempo limitado, dividido em dias do jogo. Você escolhe qual lugar deseja ir neste dia, e cata os recursos que deseja. Ao mesmo tempo, você envia os outros companheiros a outras regiões escolhidas por você. A porcentagem de sucesso pode variar conforme o quão bem estão preparados e bem cuidados na base.

Ao fim do dia, todos se reúnem (se ninguém se deu mal em ação, entregam os recursos que acharam, assim como pequenos objetivos centrais de cada região, e você raciona a comida para a noite. Você escolhe a quantidade para você e para as outras pessoas. Não preciso nem dizer que isso afeta a moral e saúde do grupo.

Nessas regiões o jogador coleta informações importantes, que vão para um quadro maior na base. Quando você tiver pessoas suficientes, tal como informações suficientes, o plano principal de Igor – inicialmente a invasão à usina – poderá ser executado. É bastante semelhante com os grandes roubos (os heists) de GTA V.

Agora explicando como são essas regiões onde você recolhe os recursos, bem, você chega utilizando sua arma de teletransporte, que lhe envia da base para o lugar escolhido. Da mesma forma, você  deixa o local, voltando para a base na hora que desejar também, usando a mesma arma especial, que corta um portal no ar e se abre para você. Esse portal, que chamam de buraco de minhoca, é alimentado com a energia da usina, uma pedra radioativa encaixada nesta arma, que parece uma furadeira sem broca. O material se chama chernobilita.

Chernobylite chernobilita

As áreas que você visitou durante essas caças mais simples, vão conter ervas, cogumelos e outras peças. Esses são os materiais utilizados para construção na base. Sim, não se assuste se, por exemplo , precisar de ervas para construir uma cama. Por sorte, você terá facilidade de localizar em meio à vegetação, todos os materiais, pois outra ferramenta varre  e ilumina esses recursos em cor amarela, ou verde (dependendo se for  material simples ou algo importante na história).

Agora, em meio de tanta vegetação, é um pouco difícil acompanhar o traçado do caminho dos inimigos que patrulham as áreas. A furtividade se baseia em ir lentamente agachado e atacar com a faca pelas costas, imediatamente matando a vítima. Tantos objetos e terrenos irregulares, somados a caminhada lenta, pode tornar a brincadeira tediosa e é de se adivinhar que isso será repetido muitas vezes para manter a sua base rica em materiais e todas as pessoas felizes. Só aí, já nos distanciamos bastante do terror, e até mesmo o que parecia ser a sua maior inspiração, tratando-se de jogo: a franquia Metro.

Soa muito mais como um jogo de PC, sobre catar materiais furtivamente e pacientemente. Os upgrades de armas apontam para a possibilidade de entrarmos nas missões afim apenas de tiroteios, mas genuinamente, não soa como se o gun play de Chernobylite seja o mesmo de um Call of Duty e que te convide demais para andar por aí de peito aberto e sem medo de gastar tantas balas.

Chernobylite-upgrades-de-armas

Sendo uma versão de PS4, jogada num PlayStation 5 para esta análise, o jogo se comporta de maneira abaixo do esperado, com framerate inconstante e um screen tearing violentíssimo no topo da tela. Além de bugs que quase destruíram o nosso save.

A estética de Chernobylite é mais interessante na premissa do que na ação em si. Seus caminhos buscando realismo demais fazem o level design agir contra o prazer de se estar numa gameplay suave. Sua visão sempre parecerá obstruída pela vegetação e o visual embora seja belo em alguns aspectos, é pobre em outros, mas acima de tudo, cansativo. As florestas radioativas, mas ainda sim tão verdes, parecem infindáveis e não há nada de interessante para se ver ou interagir, a não ser a própria coleta de recursos.

O jogo ensaia ser um immersive sim (que são jogos como Bioshock ou Deus Ex, onde o jogador constrói sua impressão sobre o mundo através de seus sinais, as documentações, que fazem muito mais o papel de abrir a mente do jogador do que simplesmente olhar para algo que conte de forma tão exposta a história).

Só que Chernobylite parece falhar nesse aspecto, mesmo porque ele se denomina mais um RPG, pelo fato de haver um certo número de conversação entre personagens, além de decisões. Mas até aí, Deus Ex era assim também, ou seja: o jogo aqui só não é interessante o suficiente.

Mas como eu dizia sobre a estética ser mais animadora do que a prática, o mundo possui suas regras e peculiaridades, como em Death Stranding. Os céus podem descer com uma tempestade verde com raios aos montes, que provocam incêndios na mesma cor. O material misterioso que dá nome ao jogo, a chernobilite, é um material que tem relação com monstros e as áreas que eles habitam.

Suas decisões e caos onde causa, podem determinar como as regiões serão patrulhadas no próximo “round” (dia), ou o nível de presença radioativa, sugerindo mais monstros. Nisso, também é importante construir sua base de forma que traga melhorias de vida, como purificadores de ar e até formas de manter longe  a influência desses materiais estranhos.

Nota
Geral
7.0