A segunda metade dos anos 90 viveu um período curioso na história dos videogames. Aparentemente toda franquia tinha a obrigação de fazer uma conversão para o universo 3D, o que muitas vezes acabou não agradando as críticas e fãs. A Capcom, com sua fama no gênero, luta achou melhor terceirizar para a Arika a produção do primeiro Street Fighter poligonal, que chegou ao mercado em 1996 com o nome de Street Fighter EX, apesar de eu gostar bastante do título, a crítica fez duras avaliações, reclamando de sua jogabilidade lenta principalmente, o que até fazia sentido de certa forma. Coube à própria Capcom se aventurar nesta nova onda com uma série nova que ia muito além do carimbo de spin-off que alguns davam a ele.

Tela título do jogo.

Rival Schools é um jogo do gênero luta lançado originalmente para Arcades no ano de 1997. Em 30 de julho de 1998 o PlayStation 1 recebeu, exclusivamente, uma conversão com conteúdo inédito para ser explorado. Posteriormente o título surgiu na PlayStation Network, na época do Playstation 3.

Publicidade envolvendo o jogo.

Curiosidade 1: As vendas de Rival Schools atingiram a marca de 550 mil cópias em sua estreia no PlayStation 1. Números esses expressivos para um título spin-off já em sua estreia dentro de uma plataforma exclusiva.

Bastidores

Designer Hideaki Itsuno.

O time de desenvolvimento de Rival Schools é bastante extenso, mas, aparentemente, o nome de maior destaque seria o do design Hideaki Itsuno, que após a conclusão do jogo de luta poligonal da Capcom, Star Gladiator, ficou insatisfeito com o resultado do título ter 30fps. Assim sendo, começou o planejamento para uma franquia inédita que atingiria os almejados 60fps de seu criador, o que, segundo consta, foi alcançado.

Inicialmente, o título do jogo seria Justice Fist e em seu enredo os melhores lutadores do mundo se reuniriam com o objetivo de decidir quem seria o maioral (qualquer similaridade com Street Fighter é mera coincidência). Tudo indica que a maioria da equipe não gostou da trama por trás das batalhas, cabendo a Itsuno pensar em algo que ativasse o interesse daqueles que tivessem acesso ao jogo. A solução foi trazer o ambiente escolar para as batalhas, já que isto traria lembranças de uma época que todos viveram. A nova ideia foi então aprovada.

Durante o planejamento chegaram a cogitar a possibilidade do título possuir mais de 40 personagens selecionáveis deste o começo, assim como as batalhas ocorrem entre trios e não duplas (ideia essa que sabemos que seria reaproveitada futuramente). A presença de Sakura como uma lutadora foi, completamente, com o objetivo de ajudar nas vendas do game, já que seu carisma já era reconhecido pelos gamers na época de Street Fighter Zero 2.

Curiosidade 2: Que Rival Schools é um spin-off da franquia Street Fighter nós já sabemos, o que poucos sabem é que estes títulos dividem espaço dentro do universo de outras 3 séries da Capcom: Captain Commando, Slam Master e Final Fight.

Enredo

Curiosamente Rival Schools valoriza muito mais seu enredo do que a própria franquia Street Fighter. Abaixo vamos descrever um resumo da trama sem prejudicar a experiência daquele que ainda não deu a merecida atenção para a franquia. Então fique tranquilo, pois os spoilers são completamente irrelevantes para a experiência de jogo. Desde já vale destacar que para conhecer a trama corretamente devemos escolher personagens de uma mesma escola, do contrário as lutas são apresentadas em um estilo “comum” de arcade mode.

Tudo começa em uma cidade fictícia do Japão chamada de Aoharu City, aqui alguns estudantes, aparentemente, estavam sofrendo sequestros sem deixar maiores rastros para a polícia local. Para resolver esta estranha confusão, alunos de diferentes instituições e com habilidades sobre-humanas resolvem formar times e ir atrás de uma solução.

Golpes à distância não podem faltar em um jogo de luta da Capcom.

A escola “principal” é a Taiyo High School, onde os alunos Hinata Wakaba, Kyosuke Kagami e Batsu Ichimoji partem para a investigação, principalmente, após o sumiço da mãe de Batsu. Após conhecer outros que estavam na mesma busca, sabe-se que tudo, aparentemente, estava sendo arquitetado por Raizo Imawano, diretor de uma renomada instituição chamada Justice High School, que tinha o objetivo de, junto de alunos especiais, adquirir o domínio do Japão.

Dica: caso derrote o chefe da forma correta, saberá qual é a verdadeira batalha final.

Briga de colegiais é sucesso garantido.

Curiosidade 3: Algo realmente curioso é a existência de uma banda de rock/hardcore de Nova Iorque formada com o intuito de homenagear o clássico jogo da Capcom. Não bastasse o nome da banda ser Rival Schools, seu primeiro álbum se chama United By Fate.

Abaixo segue uma das músicas da banda.

Personagens de Rival Schools

Abaixo vamos descrever brevemente uma ficha de alguns dos vários personagens que compõem o jogo Rival Schools. Nada que comprometa de enredo. O interessante é que suas habilidades estão ligadas a um esporte ou área de estudo, como a jogadora de vôlei Natsu ou o futebolista Roberto (uma clara homenagem ao Brasil).

Tela de seleção de personagens.

Escola – Pacific High

  • Boman Delgado – De nacionalidade americana, Boman é estudante de teologia e busca conhecimentos para se tornar padre um dia, está na aventura para tentar entender a razão dos desaparecimentos;
  • Tiffany Lords – Intercambista americana que possui características de boxeadora, apesar de usar bastante as pernas. Tem uma paixão por Roy e futuramente vem a ser sua guarda-costas (curioso não?);
  • Roy Bromwell – Ele fecha o time americano. Possui uma rivalidade com Batsu de forma semelhante a que Ken possui com Ryu. Sua habilidade vem da prática do Futebol Americano. Curiosamente ele odeia os Estados Unidos, devido ao fato de seu avô ter perdido uma das pernas durante a Segunda Guerra Mundial.
Time Pacific High

Escola – Taiyo High

  • Batsu Ichimonji – É o protagonista de Rival Schools. Está no enredo com o objetivo de encontrar sua mãe desaparecida. Não possui uma relação direta com algum estilo de esporte, sendo um típico estudante rebelde japonês. Pessoalmente, ele me lembra um pouco Yusuke Urameshi de Yuyu Hakusho;
  • Kyosuke Kagami – É o típico CDF arrumadinho de passado misterioso. Na trama ele é o irmão gêmeo de Hyo Imawano, da escola Justice High, e muda de lado durante o enredo;
  • Hinata Wataba – Assim como Batsu, não possui uma relação direta com um estilo de esporte, se tratando da típica estudante de escola japonesa. Semelhante com Sakura, possui habilidades que lembram as de Ryu de Street Fighter, pois, aparentemente, todo estudante japonês conhece as técnicas do hadouken.
Time Taiyo High

Escola – Gedo High

  • Akira Kazama – A personagem é irmã de Daigo, líder da gangue da escola de meninos Gedo. Akira usa um capacete para poder entrar na escola do irmão e encontrá-lo sem ser reconhecida. Suas habilidades remetem ao de gangues de motoqueiros;
  • Eiji “Edge” Yamada – Subordinado na gangue de Daigo, resolve ajudar Akira em sua busca pelo irmão. Sua especialidade está no uso de facas durante os combates;
  • Gan Isurugi – Membro da gangue de Daigo, teve uma certa resistência para aceitar a presença de Akira na gangue, mas no fim acaba ajudando a garota após saber que ela é irmã de Daigo. Sua especialidade está na arte do sumô.
Time Gedo High.

Escola – Tamagawa Minami High

  • Sakura Kasugano – Na época, aquele que aqui escreve, conhecia o game como jogo da Sakura de Street Fighter Zero 2. Aqui ela se apresenta com o objetivo de ajudar nas vendas do game e, por ser grande amiga de Hinata, decide ajudar a desvendar os mistérios de Aoharu.
Sakura Kasugano

Curiosidade 4: O universo de Rival Schools vai além das telas dos videogames. No ano de 1998 um mangá com dois volumes chegou ao Japão, assim como em 2006 foi publicado nos Estados Unidos um HQ em dois volumes. Estes exemplares americanos ficaram disponíveis gratuitamente na internet por um breve período de tempo.

Análise Técnica

Rival Schools consegue a façanha de ter uma jogabilidade complexa e simples simultaneamente, isto ocorre principalmente com o mapeamento de botões de sua versão de Playstation 1 que permite utilizarmos especiais, parry e agarrões apertando apenas um de seus botões superiores (L1, L2, R1 e R2). Uma de suas principais influências vem da série “versus”, que já fazia sucesso no período. Desta franquia tivemos a presença de escolher duplas, ataques combinados e o famoso super pulo ao apertar para baixo e para cima rapidamente, sendo que, ao contrário de sua franquia inspiradora, aqui não ocorre um acompanhamento da câmera para aquele que estiver acima, e sim um afastamento seguido de um rápido zoom, algo lindo para os consoles da época.

Os botões de ação principal são apenas 4, um soco rápido e um forte e chutes equivalentes. Enchemos barras de especiais conforme o clássico Art of Fighting, o que já era utilizado pela Capcom em algumas séries. A velocidade do jogo realmente impressiona para um jogo de luta 3D da época, principalmente quando comparado com a série Street Fighter EX. Os combos são fáceis de serem feitos e combinados com os especiais, o que gera uma dinâmica interessante para os combates.

Combos fáceis ajudam na imersão do jogo.

Uma das principais novidades desta versão de PlayStation 1, que estamos analisando, foi a inclusão de um segundo CD de nome Evolution, aqui temos uma obra totalmente original, com um simulador de vida escolar em que devemos fazer escolhas entre minigames e lutas. O mais interessante é que ao final desta aventura criamos um personagem 100% original que pode ser usado nos outros modos de jogo, simplesmente genial. Infelizmente este CD 2 ficou restrito à versão japonesa do game (provavelmente por acreditarem que visual novel não faria sucesso entre os ocidentais).

Os gráficos de Rival Schools são muito bem apresentados no PlayStation 1, com polígonos bem definidos e cenários razoavelmente bem feitos, realmente não há muito o que reclamar neste quesito. Claro que se colocarmos de frente com os games mais bonitos do console ele perde um pouco, ainda assim está lindo, destaque para os designs dos lutadores que, apesar de estereotipados, deixaram os mesmos com bastante personalidade.

Um jogador de futebol chamado Roberto não poderia faltar.

A dificuldade do jogo é apenas razoável, não havendo maiores dificuldades para um jogador experiente em jogos de luta conseguir chegar ao final bom do game na dificuldade normal (4 estrelas nos títulos da Capcom). Esta branda complicação para se chegar ao final do game ajuda pelo fato do fator replay ser enorme, levando bastante tempo para conseguirmos abrir os finais bons e ruins de todos os personagens.

Personagens grandes que chegam na barra de energia, lindo.

A trilha sonora de Rival Schools foi composta por Setsuo Yamamoto, músico responsável pelas composições de jogos como Strider 2 e alguns títulos da franquia Mega Man. Aqui ele fez um trabalho competente, nada extremamente memorável, principalmente quando comparamos com outras obras da Capcom, ainda assim bastante competente. Os efeitos sonoros ficaram sob responsabilidade de Wataru Hachisako e Satoshi Ise, estes, por sua vez, foram dignos de um título de luta da empresa.

Abaixo vemos a trilha sonora completa de Rival Schools.

Curiosidade 5: Rival Schools teve um retorno suficiente para gerar suas continuações. Em 1999, ainda exclusivamente para o PlayStation 1, somente no Japão, chegou Rival School 2 Evolution (em livre tradução do japonês). Infelizmente este título trata-se apenas de uma versão definitiva do primeiro jogo, com a presença de 2 personagens novos e uma versão melhor elaborada do modo de simulação. Apenas no ano 2000 sua verdadeira sequência, Project Justice, foi lançada. Agora com os jogadores controlando times de 3 personagens. Infelizmente este título foi lançado apenas para Arcades e Dreamcast, não chegando a receber uma versão para Playstation 2.

Abaixo seguem imagens do Project Justice.

Conclusão

Rival Schools foi um jogo muito competente dentro do gênero de luta 3D que, provavelmente não atingiu um nível maior de popularidade no PlayStation 1 devido ao fato de chegar ao mercado meses após a excelente versão de Tekken 3 que o console recebeu, sendo que este adquiriu uma popularidade incrível dentro do console, obscurecendo outros títulos semelhantes. Hoje vale muito a pena revisitar a franquia, principalmente porque este gênero não possui tantos títulos sendo lançados como nos anos 90, assim como para imaginar como seria um capítulo desta rivalidade entre colegiais nos consoles modernos. Só podemos esperar.

Jogado no Playstation 1