A Devolver Digital é uma distribuidora que nos acostumou a trazer em sua grande maioria, jogos de muita qualidade. E principalmente, jogos que não se apoiam em estruturas tão populares ou que seguem um padrão da indústria.

Desta vez falamos sobre Weird West, um trabalho desenvolvido pela WolfEye Studios – novo estúdio formado pelos co-criadores de Dishonored e Prey-, que neste seu primeiro título, entregam – ou pelo menos prometem entregar(vou falar disso mais abaixo) – um simulador imersivo com vista isométrica baseada em um fatídico e culturalmente inexplorado oeste.

E esta não é a história típica de índios e cowboys, o título se mistura perfeitamente com o gênero sci-fi trazendo uma história com um toque de fantasia sombria cheia de misticismo, carregado de ocultismo e monstros como sereias, mutações genéticas e até mesmo lobisomens nos esperam nesse oeste estranho.

CADA UM POR SI E DEUS CONTRA TODOS

Entrando em detalhes, neste universo não controlamos apenas um personagem, viveremos cinco histórias totalmente diferentes. Tudo interligado por uma estranha marca que corrói o corpo de cada um desses heróis. A primeira de todas será uma heroína, e diga-se de passagem isso é excelente, já que a figura da mulher como heroína no velho oeste muitas vezes é omitida, mas historicamente havia grandes caçadoras de recompensas.

A sua aventura começa com Jane Bell, caçadora de recompensas aposentada que pendura seu distintivo para viver uma vida normal como agricultora ao lado de seu marido e filho. No entanto, um dia os Stillwaters, uma gangue que trafica bebidas alcoólicas e armas, sequestra o seu marido e mata o seu filho.

A partir daqui a história começa a nos deixar muitas incógnitas para resolver. Por que os Stillwaters sequestram as pessoas? Por que eles usam sacos na cabeça? O que diabos é essa marca no rosto de Jane Bell que nem ela mesma sabe de onde veio?

Marcada por raiva e cheirando a vingança, a nossa primeira protagonista vai desenterrar suas velhas armas e voltar à sua vida de caçadora de recompensas para visitar este estranho oeste cheio de criaturas fantásticas, mitos, lendas e muita escuridão. Mas calma, que isso é só o começo da primeira história.

Ao longo do jogo ainda iremos nos colocar no lugar de um lobisomem, um porco e alguns outros personagens. Não pretendo me aprofundar na história para evitar spoilers. Apenas saiba que não poderemos escolher entre eles. A história nesse sentido é predefinida em uma ordem linear.

MUITO MAIS UM RPG CLÁSSICO DO QUE UM SIMULADOR IMERSIVO

Weird West é mais do que apenas sua própria estranheza, porque quando nos aprofundamos um pouco mais, e embora tenha sido vendido para nós como um immersive sim, logo percebe-se que ele tem outra referência, mais clássica, mais conhecida, que é impossível ignorar: os clássicos RPGs ocidentais.

Ao jogar alguns minutos, é notória a inspiração nos dois primeiros Fallouts, os dois primeiros Baldur’s Gate e a franquia Ultima. Weird West percorre caminhos familiares para os fãs de RPG ocidentais. Isso significa que temos visão aérea, combate em tempo real, limitações de quantos objetos podemos carregar no inventário, e todos os tipos de interações com o cenário e os ataques, tanto ataques que nosso herói terá reações, como também dos inimigos, baseados em resistência e fraquezas elementares. Isso, desde o início, adiciona uma camada de familiaridade ao jogo que torna muito mais fácil fisgar um fã de RPG ocidental dos anos 90.

Mas apesar de todas essas semelhanças, isso não significa que Weird West é um puro RPG. Aqui não há atributos, classes ou criação de personagens, porque na verdade o importante são seus cinco protagonistas. Cada personagem é uma estrela do seu próprio capítulo, e embora nos conte uma história unificada, seu charme reside no fato de que todos eles compartilham a mesma mecânica, mas que ao mesmo tempo proporcionam estilos de jogos muito diferentes dos outros.

Isso se deve à existência de uma série de amuletos que nos permitem desbloquear as próprias habilidades dos personagens pré-existentes. Embora todos tenham as mesmas habilidades em relação às cinco classes de armas no jogo (rifles, espingardas, pistolas, arcos e armas corpo a corpo), cada um tem quatro habilidades próprias que definem seu estilo de jogo. Jogar com o porco que tem uma resistência absurda e é excelente para um combate mano-a-mano, no x1, pé na porta e soco na cara.

Mas ao mesmo tempo que é bem diferente do que com o Oneirista , que com seus poderes mágicos e grande mobilidade se sente mais confortável fazendo controle de área e se escondendo após cada grande movimento. Dessa forma, Weird West nos dá flexibilidade ao custo de nos forçar a reaprender a jogar a cada poucas horas, algo que dependendo de cada pessoa, pode ser uma virtude ou um defeito.

UMA ESTRUTURA QUE PODE IRRITAR(OU NÃO)

Weird West é um mundo semi aberto composto por missões principais e secundárias, mas ele não para por aí. Nas aldeias também podemos aceitar contratos de caçadores de recompensas, ou seja, para quem não consegue deixar nada passar como eu, vai perder muitas horas desviando da história principal para sair pelo oeste caçando bandidos em troca de boas moedas de ouro. Essas caças podem ser concluídas em furtividade ou gerando intensos tiroteios.

Dentro dessas missões, temos três tipos: as clássicas missões de matar ou trazer o bandido vivo, as de assaltar bancos e buscar ouro ou um item, como também a de libertar algum prisioneiro que foi capturado. Ao explorar o mapa, é possível desbloquear novos lugares e de tempos em tempos testemunharemos alguns eventos: Caravanas de vendedores, assaltos de bandidos ou animais selvagens loucos para fazer você de almoço. Mas é aí que o jogo começa a demonstrar um desgaste que tem toda pinta de ser limitação financeira.

No fim das contas, a variedade de eventos é muito limitada e eles se repetem demais. Apesar de ser um mapa bem grande, os locais que visitamos todos parecem ser iguais. Temos no máximo dois ou três cenários de cada tipo que se repetem ao longo da nossa jornada, mudando apenas as missões, os NPC’s e os diálogos. Mas você sente que toda infiltração em um banco, por exemplo, tende a ser idêntica, independente se ela fica no Bairro do Limoeiro ou na Vila Xurupita.

Por outro lado, o jogo tem um toque de loot-shooter, ou seja, o muambeiro que habita em nós, não irá deixar passar nem um casebre nesses cenários idênticos uns aos outros. Afinal, o que podemos encontrar em alguma prateleira ou dentro de um cofre podem significar excelentes novas armas, ou meras miçangas para vender nas aldeias em troca de algumas moedas.

Mas sabendo que nem todo mundo se importa com isso, o jogo incentiva esse tipo de jogador de uma forma bem interessante. As ‘relíquias de NIMP’ nos permitirão desbloquear habilidades de classe ou armas, que consomem pontos de ação. Um deles, por exemplo, é um “silenciador sentinela”, que nos permite fazer um tiro silenciado com um rifle, uma habilidade muito interessante se você gosta de jogar em furtividade.

Mas como eu falei acima, esse jogo não entrega uma experiência de RPG tradicional onde você sobe de nível de acordo com as missões completadas. E é aí que entram as relíquias de NIMP. Elas estão espalhadas por todo o jogo e podem estar em qualquer lugar. Qualquer lugar mesmo! Desde cofres bem guardados, até dentro de um vaso sanitário em um banheiro próximo a um celeiro. Tal qual as missões secundárias, eles são gerados de forma procedural. E isso irá incentivar muito o jogador a fuçar todo lugar possível dentro do cenário em que está.

UM RPG ISOMÉTRICO QUE É MELHOR JOGADO COM UM CONTROLE

Se eu falasse isso para alguém há uns 20 anos atrás, eu provavelmente levaria ban de algum fórum de games. Mas Weird West, que também chegou para Playstation e XBOX(está no Game Pass), consegue acertar no seu gameplay isométrico com o uso de controle.

E pasmem! Consegue errar em quase tudo ao tentar usar com um teclado e mouse. Ele tem uma seleção bem imperfeita de atribuição de teclas para se jogar com mouse e teclado. Mas apesar de acertar no uso do controle, ele ainda peca em vários momentos. Principalmente no uso das habilidades.

Conseguir ativar as habilidades e manter um ritmo de tiroteio frenético, às vezes pode ser frustrante. Principalmente quando você tiver de lidar com vários inimigos ao mesmo tempo. Por sorte, ao usar as habilidades, o jogo fica em slow motion, o que permite que você, depois de muita prática, comece a lidar melhor com eles.

UM DELEITE PARA OS OLHOS E OUVIDOS

No quesito gráfico, é aqui onde a Wofeye Studios acerta em cheio e sem pecar em absolutamente nada naquilo que se propõe. Weird West tem uma paleta de cores e um estilo artístico que dificilmente irá envelhecer ao longo dos anos, uma espécie de cell shading que remete bastante a Boderlands.

E isso se estende também no próprio gameplay, já que podemos interagir com praticamente tudo do cenário e tudo terá reações não só no gameplay, quanto nos gráficos. Desde dar um tiro em uma lâmpada para apagá-la e ricochetear, ou em um barril de óleo que irá explodir, aqui tudo será bonito e gratificante. Toda ação irá gerar uma reação que irá te satisfazer.

Quanto à sua trilha sonora e ao sound design, o estúdio também proporciona algo extremamente imersivo e que consegue misturar um western spaghetti com o horror noir e místico. O jogo está traduzido para português brasileiro com legendas, e apesar de nem todos NPC’s terem dublagem, ainda assim é possível ficar bem imerso nesse mundo graças a uma excelente melodia que nos acompanha durante a nossa jornada.

UM MONSTRO DE DUAS CABEÇAS

Em outras palavras, Weird West é um jogo de duas cabeças. Como um RPG isométrico é super bem executado e faz direitinho o papel de nos trazer de volta aos jogos clássicos de PC dos anos 90. Mas se tivermos, mesmo que de forma injusta, comparar a outros trabalhos semelhantes, como Dishonored 2 ou ao ainda em acesso antecipado Baldur’s Gate 3, é possível ver que o estúdio trabalhou com um teto financeiro bem limitado.

Como um simulador imersivo, eu diria que ele é uma experiência mais light nesse quesito, mas ainda assim bem recompensadora. Pode ser uma excelente porta de entrada nesse gênero para alguém que ainda não está familiarizado e queira ter um gostinho. Talvez narrativamente Weird West esteja sempre quebrando a expectativa, mas seu roteiro e sua construção do mundo são excelentes, e faz com que eu venha sempre a bater na mesma tecla sobre recomendar, ou não, esse título de estreia da WolfEye Studios: Weird West é um jogo que cada pessoa deve julgar de acordo com sua própria experiência.

Para alguns, será um jogo chato e desajeitado que nunca vai entregar o que promete. Para outros, e eu me incluo nesse grupinho, ele será um jogo que lembraremos nos próximos anos. Talvez não como um marco do gênero, mas como um expoente dele. E talvez seja exatamente o que a WolfEye Studios queria. Afinal, fazer um jogo onde a estranheza é algo normal, pensar que ele viria a ser um jogo com transtorno de personalidade múltipla.

Nota
PONTUAÇÃO GERAL
8
Weird West é um jogo com muita profundidade, muito conteúdo e variedade. Nenhum jogo será igual ao outro. Podemos lidar com situações de muitas maneiras e levará tempo para analisá-las. A escassez de recursos, o cenário e a trilha sonora nos remetem a uma autêntica aventura de RPG ocidental. weird-west-acao-e-rpg-se-convergem-no-estranho-oeste-leia-a-nossa-analise