Watch Dogs: Legion não era o jogo mais esperado neste segundo semestre. Muitas pessoas até esqueceram de seu lançamento. Depois das quase 20 horas com o game em sua totalidade, fica claro de que falta um grande polimento, e imagine só, se o jogo tivesse sido lançado no começo do ano, como estava originalmente planejado. Contudo, Legion ainda consegue se sair acima da média e produzir momentos de bastante diversão e conteúdo genuinamente inspirado.

Vigiados

Chicago, palco para Watch Dogs de 2013 é a cidade mais vigiada do mundo; em seguida São Francisco, a cidade da diversidade também é solo que fez erguer gigantes da tecnologia como Facebook e Google.

Nada mais justo que suas contrapartes fictícias do jogo fossem retratadas na cidade; Londres, símbolo da “Britain Exit” da União Europeia (o famoso Brexit) está retratada no futuro um pouco mais avançado em relação aos outros jogos da série.

A tensão política real é espelhada no jogo não de forma tão direta, mesmo porque a Ubi já é conhecida por não entrar nesses meandros políticos de forma verdadeira.

Tudo criado em Legion é apenas o resultado imaginado das tecnologias atuais, o rumo do rio na história da humanidade. Desta forma, o Dedsec, grupo cyber ativista presente em todos os três jogos, continua na guerra que parece eterna para devolver a privacidade de dados às pessoas. 

Ali por 2030-2032 o mundo parece ser regido de forma tão correta que parece passar a mesma sensação de quando o namorado visita a casa dos sogros pela primeira vez: o momento pode até ser bom, mas nada é espontâneo de ambas as partes. 

Então nessa Londres melancólica você se pergunta se a vida vale mesmo a pena se você sabe exatamente como serão os dias até o seu fim. As rádios comentam sobre o app que deixa qualquer civil te denunciar por qualquer coisa que você tenha feito e que ele não tenha gostado, mesmo que seja mentira.

Watch Dogs Legion drones

Cada quarteirão contém uma barreira eletrônica que varrerá seu histórico enquanto você dirige pelas ruas. Cada céu será enfeitado por drones sempre vigilantes quando não forem drones fazendo entregas para um mundo que saia menos de casa.

Why so serious

Watch Dogs: Legion parece perder o ‘DNA’ que o segundo jogo tinha criado: a alegria visual e o tom da narrativa, tal como seu mundo expressivo para acompanhar suas ideias. No terceiro jogo, assim como o primeiro, se leva muito a sério, fazendo a tarefa de se estender através das horas parecer meio ardilosa.

Por sorte às vezes isso pode render arcos narrativos excitantes, algumas vezes beirando ao jogo de terror. O que ficou foi o desejo de que essas historietas fossem replicadas mais vezes no sentido da qualidade.

Essa seriedade tenta ser combatida com a possibilidade de se jogar com recrutas de mais de 60 anos, como mostrado nos trailers, mas nessa altura só vai destoar com  o resto do game e logo não soa como alívio cômico, mas expõe ainda mais o desfalque.

A trama geral é bem básica, mas até efetiva. Um golpe armado pelo então governo faz com que ataques terroristas falsos, mas graves sejam cometidos em vários pontos históricos de Londres, explodindo vários prédios e quarteirões.

O jogador tem a oportunidade de presenciar os momentos que antecedem o ataque. Pôde-se observar a determinação com que os malfeitores reais forjaram os locais para parecer que tudo fora cometido pelo Dedsec.E o plano dá certo. Após o trágico evento orquestrado, o grupo ativista está ameaçado e quase extinto.

O governo terceiriza a segurança, entregando as chaves da cidade para a Albion, praticamente mercenários velados, mas uniformizados. Com isso, todas as proezas tecnológicas negativas e milionárias poderão ser realizadas enquanto o povo é opresso nas ruas e fica sem tempo para olhar o desenvolvimento dessas verdadeiras máquinas de guerra. Enquanto isso, claro que Dedsec leva a culpa por tudo de ruim que acontece na cidade.

Agora, é hora de confiar na inteligência artificial semi-divertida, Bagley, e recrutar simpatizantes à causa pela cidade afim de reconstruir o Dedsec e expôr a verdade.

Individualidade ambígua

Então chegamos no sistema famoso de perfilamento que é o selling point de Watch Dogs: Legion. Como muitos sabem, em toda série Watch Dogs é possível usar o celular de seu personagem para obter informações básicas sobre cada NPC andando na rua. Neste atual jogo isso é feito de forma mais profunda e ativa, já que é possível recrutar literalmente qualquer pessoa com um toque de botão. Bem… Nem tanto.

Watch Dogs Legion NPC

 

Antes disso, é preciso conversar com o candidato para ouvir sobre suas mazelas, e claro que, como todo bom videogame, vai se tratar sobre algo que está inerentemente inserido na gameplay base do jogo. Você não precisa fazer isso imediatamente, você pode apenas deixar quantos candidatos quiser numa wishlist para tratar de cada um conforme necessitar, fazendo assim um potencial baralho de pessoas montar um deck de proposta.

Cada pessoa possui características específicas que acabam afetando na gameplay. Alguns são proprietários de determinados veículos, alguns são mais resistentes (habilidade passiva), alguns possuem armas letais não comuns, gadgets, etc. Devido à profissão de cada um, é possível que encontre, por exemplo pessoas com habilidades passivas e, caso esta pessoa seja um membro efetivado do Dedsec todo o grupo poderá desfrutar desta habilidade.

Watch Dogs Legion recrutamento

Uma habilidade interessante, por exemplo é a de fazer com que qualquer membro permaneça por menos tempo na cadeia quando preso. Sim, seus personagens podem ser presos. Ao usar força não letal contra os inimigos, as lutas  serão de igual para igual e se o seu personagem sucumbir, ele irá para a cadeia, ficando impossibilitado de agir e você será forçado a utilizar outra pessoa do time.

Porém, e se a enrascada for grande e você for morto? Bem, ao iniciar Watch Dogs: Legion o jogo irá perguntar se você quer jogar com o modo de morte permanente ligado. Este é claramente o jeito certo de se jogar, pois, ao verificar o que está em jogo, você irá criar estratégias mais emocionantes para atravessar o título.

Watch Dogs Legion mortes

Isso é admirável da parte da Ubisoft e algo parecido já ocorria em Assassin’s Creed Odyssey, onde o modo interessante mesmo de se jogar era com pontos desligados de resolução de missão no mapa. As dicas que você recebia dos NPC’s eram relacionados a pontos visuais do mundo. Isso tira a conformidade e marasmo que os jogos modernos estão no momento.

Então sim, em Legion se o seu personagem é perdido neste modo, ele não volta (embora eu tenha perdido missões dentro de estabelecimentos e o jogo apenas retornou de um checkpoint). Pra ser menos intimidador, eu posso afirmar que este jogo mesmo no nodo normal de dificuldade ainda é bem fácil. Logo senti que criar um grande deck de personagens seria apenas questão estética, ao menos no modo normal.

Isso tudo é bastante animador do ponto de vista do game design, porém existem alguns males produzidos por essa direção que o jogo tomou. Para cada gênero e faixa de idade, existe uma grande gama de falas similares, para quando rolar uma cutscene e outros áudios relativos ao roteiro, as diferentes pessoas aleatórias contratadas andem dentro da linha. Um trabalho herculano, sim.

O resultado disso foi de renunciar a personagens de verdade. Nenhum tem um background maior do que “conhece uma celebridade de Hollywood”, ou “Influencer podcaster, está trabalhando no estúdio até as 16:00”, etc. Não há passado, não há trama. Absolutamente todos os personagens vivem pelo presente, clamando um futuro quase utópico.

Ninguém tem outros problemas, tudo está ligado ao cyber crime. Todos vivem em função deste mundo vigilante. Isso cria uma enorme monodimensionalidade, além de invalidar o passeio em Londres.

Cidade para Inglês ver

Londres é uma cidade cheia de detalhes visuais, tanto que os consoles mais antigos dessa geração parecem tremer na base para rodar. Mas é de se imaginar que também haja um enorme volume de dados rolando em background por causa deste sistema de perfilamento. Porém, essa mesmíssima Londres não lhe dá muitos motivos para exploração, mesmo não sendo tão enorme quanto Odyssey.

Watch Dogs Legion cidade de londres

O mundo funciona melhor em função das mecânicas de gameplay. O mundo é vivo e, em simultâneo, morto. Mal se veem pessoas dentro dos carros e o pouco público para muito espaço parece mover-se de lugar nenhum para lugar algum. Eles saem de portas com fundos escuros, vagam e embora seus segredos digam para onde estão indo, é tudo mentira.

A sentença anterior que afirma que o jogo se leva a sério demais está presente nesta forma melancólica de mundo. Não existe um movimento cultural, o jogo está o tempo todo mais fixado em passar opressão e assim, de novo, parece que não há outra coisa para se viver.

Isso vai resultar talvez na vontade, cada vez mais, de usar o sistema de metrô, que representa o fast travel no game, já que insistem sempre em jogar seus objetivos em lados opostos do mapa, para forçar a exploração, quase sabendo que este mundo possui esse pequeno problema de ser desinteressante.

Arcos

Watch Dogs Legion possui picos interessantes em sua narrativa. Se a gameplay é recheada de atividades que acabam ficando repetitivas por terem sempre o mesmo ‘modus’ operandi já na proposta, a narrativa as vezes constrói surpresas que geralmente ocorrem dentro de instituições, e pode ser até que o jogo brinque com o jogador, fazendo com que ele tome decisões graves. Porém, são deveras espaçados, fazendo o jogo de 17 horas (campanha principal) ter poucas experimentações nessas narrativas. 

Conforme algumas horas vão embora e o jogo passa da metade da duração, as coisas ficam mais interessantes na narrativa, tudo claro, considerando sobre o que falei anteriormente sobre nenhum personagem ter formação de base para ser resolvida.

O que temos aqui é uma trupe de vilões (ao melhor estilo Far Cry 5) e o desejo genérico de seu grupo de eliminar um a um. Esses momentos, aliás, são pontos altos.

Bugs

Por fim, Watch Dogs: Legion parece ser um jogo em que em seu desenvolvimento, os recursos foram a maioria das vezes para o sistema de “Play as Anyone” e de repente temos situações em que o jogo irá travar por completo ou fechar na cara do jogador. Ou então avisos de que seu personagem está severamente machucado quando não é verdade. Ou pelo fato de que seu personagem é incapaz de se jogar do carro em movimento, pois não há animação.

Ele só sai grosseiramente na ação, com o chão passando sob seus pés como se fosse nada. Ou ainda o jogo não reconhecer que você cumpriu uma missão e nem se afastando por quarteirões fará com que o jogo diga que você passou de objetivo.

Enfim, a lista é imensa, mas a Ubisoft prometeu um grande ‘patch’ pouco depois da publicação desta análise. Vale também dizer que, o modo multiplayer estará disponível apenas em dezembro.

Concluindo

Watch Dogs: Legion é um jogo que aposta muito na diversão por mecânicas, deixando de lado o que jogos 3D têm tentado pelo menos nos últimos 15 anos: narrativas mais profundas para a mídia. Muitas vezes os estúdios se sentem intimidados em contar uma história tão profunda e, em simultâneo, terem a tarefa de construir em volta uma mecânica que não crie uma dissonância.

Desta vez os desenvolvedores deste jogo apostaram mais nas mecânicas, uma jogada arriscada devido ao escopo do projeto, porém em doses moderadas dá para se sentir satisfeito.

Algumas pessoas podem ficar empolgadas no sistema de recrutamento ou sidequests, e eu só recomendaria fazer isto ou se você se apegou demais ao mundo e as mecânicas, ou se você terminou o game e precisa de mais conteúdo e sente que aquela cidade deve ser libertada de uma vez por todas.


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Nota
Geral
7.7