Por um lado temos todas as coisas que possam desagradar em Far Cry por causa de sua repetição como série ou mesmo o tão falado modelo de jogos da Ubisoft. Tendo dito isso, é importante dizer que Far Cry 6 não é um jogo que uma pessoa possa ir correndo esperando esforços de mudanças, a não ser pequenas soluções paliativas, antes que a série alcance um ponto de mudança como Assassin’s Creed alcançou a partir de Origins.

O tamanho do mapa do novo título mostra o quanto a UBI está preocupada realmente com as críticas dos veículos (se as vendas que mandam na praça, pra que iríamos fazer o que quem entende, quer?). Depois de uma odisseia ridiculamente inflada em Assassin’s Creed Valhalla, o mapa em Far Cry 6 é extremamente grande e a jornada vai parecer infinita, muito embora a média para completar o game (sem contar as side-missions) seja de 17 horas.

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Os desenvolvedores parecem terem feito disfarces para esconder o que me soam como diretrizes vindas de cima. Por exemplo, há sempre algum mini caos acontecendo em sua volta. É sempre um animal correndo assustado, um carro de passeio agindo de forma estranha, soldados abusando de camponeses e cidadãos, tudo de forma que  o sistema espera chocar uma coisa com a outra ao acaso, e chame a sua atenção para você entrar na brincadeira. 

Outra coisa é a forma que os pontos de início de missões são dados. Depois de muito ir numa mesma região buscar a mesma pessoa para começar a missão, o jogo irá parar de fornecer atividades nessa área, mesmo que o arco dela não esteja terminado. Você então parte para outra região mais distante para iniciar ou continuar outro arco.

Depois de se divertir o suficiente por lá, outra missão no ponto original aparece e damos continuidade à narrativa daquela parte. Esse não é um recurso inédito. Nota-se a mesma técnica em GTA e até outros jogos de mundo aberto menores.

Falando em mundo aberto, muito se fala que já estamos cheios de jogos de mundo aberto, mas é engraçado pensar que não temos muitos jogos de mundo aberto como Far Cry, que tragam características parecidas e sejam em primeira pessoa. Isso significa na verdade que Far Cry copia a si mesmo, demasiadamente, invés de outros.

Mas, para quem está partindo para Yara querendo apenas um Far Cry (novamente), este é o jogo mais refinado e agradável da série, justamente por emular um pouco do que foi Far Cry 3 e por pegar os melhores elementos da série e formar um pacote mais completo em termos de gameplay.

Peço até desculpas por não adentrar demais nas mecânicas do game, porque provavelmente você já as conhece. O que posso dizer é que abandonadas foram as torres para escalar e sincronizar. O jogo investe numa outra tática: o mapa inicialmente é tímido se comparado a outros mapas de jogos  da desenvolvedora francesa.

Conforme você avança, novos grupos de ícones vão se apresentando. Quando o aglomerado de ícones estiver em plena forma, será tarde demais, e se você ainda está jogando, significa que o jogo já se vendeu.

O que é de se incomodar um pouco para quem quer o mínimo de narrativa, é a incongruência no tom do game. Talvez por ser feito por uma série de etnias, como os jogos da empresa orgulhosamente sempre mostram, não temos limites na hora de decidir o quão sério o jogo se leva, em momentos parecendo algo tão seríssimo quanto um documentário da HBO e, em outros, parecendo uma sessão de Domingo Maior com humor e violência em harmonia.

Isso tudo seria interessante, se na parte de se levar a sério, temas tão coerentes com a realidade não fossem colocados de forma tão proposital que até dá pena quando alguém da equipe diz que o jogo não possui teor político. Isso pode até parecer verídico, pois a natureza videogame é forte aqui, com mecânicas bem amarradas e a exigência de ser controlado de forma intensa.

Porém, não dá para negar as alegorias trazidas pelo jogo, como tráfico humano, tirania e tudo que um país com gerenciamento ditatorial pode oferecer. Se essas alegorias são boas ou ruins, bem, o problema é exatamente a parte de ação cômica do jogo que não conversa bem com esse assunto. Por mais fofo que cachorros com patinhas amputadas possam ser quando colocamos rodinhas para ajudar, isso não parece ser o mesmo jogo sobre um vilão de Breaking Bad, com presença forte em cena e tão bem capturado tecnicamente.

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Porém confesso que o jogo de pessoas que estão do seu lado e descobertas fáceis sobre personagens enigmáticos, até agrada, lembrando uma sessão de bons filmes da Marvel. O papel de cada um é muito fácil de entender, e o tema de revolta e revolução fabrica a agressividade necessária para casar com o gameplay violento e progressivo. Por exemplo, a gratuidade da violência entregue por Anton, o ditador da capa do game, é desagradável e forçada, mas pelo menos eu sinto que serve para construir antipatia suficiente para aceitar a natureza repetitiva e duradoura, a fim de alcançar o seu domínio final e assassinar a figura de formas inimagináveis, bem como mostrar a natureza do inimigo e do regime que você combate.

Eu não disse exatamente se essa vontade vai conseguir durar efetivamente, mas a partir do segundo acampamento que revelei no mapa, o nível de ação e traços dos personagens me ajudaram a seguir em frente. Geralmente tem a ver mais com a morte satisfatória das pessoas ligadas com o governo do que qualquer guerrilheiro que está do nosso lado.

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A cultura latina e daqueles países que o jogo está tentando mostrar, pode ser mostrada em vários aspectos, mas sem certos requintes implementados aqui, como a famigerada rinha de galos. A representação de crueldade animal em obras gratuitas não ajuda em nada, e só para você ter certeza, a briga de galos é crime em 50 países. Logo, não é como se uma francesa simplesmente tivesse tempo para reproduzir perfeitamente a arquitetura de tantos países mundo afora, e ao mesmo tempo não pudesse usar esse mesmo poder de pesquisa para descobrir sobre ilegalidades.

A rinha de galos poderia ser reproduzida no jogo sim, porém desenvolver um sistema mais complexo em cima disso, como fonte de entretenimento, abre brechas então para eu sair por aí dizendo que seria divertido uma brincadeira de banheira com sabonetes e o presidente nela, contra todo o STF. Viu só? É nessa incongruência bruta que Far Cry transita o tempo todo, sem se decidir seu tom.

Nota
Geral
7.0