No ano passado, uma das melhores obras que joguei foi um metroidvania chamado The Knight Witch. Neste terceiro mês de 2023, e retornando ao subgênero, adianto facilmente que Elderand honra o legado dos metroidvanias: é um jogo sólido, sem sobras, com um bom nível de desafio, uma trilha que se encarrega de dar o tom ao longo dos mapas e cujos visuais nos remetem a uma atmosfera lovecraftiana que orgulharia Bloodborne e outros jogos semelhantes.

Com gráficos pixelizados, o estilo retrô de Elderand funciona de forma bastante adequada em conjunto com uma série de outros elementos que, unindo uma direção de arte primorosa e uma criação de cenários estonteante, entregam uma obra arrojada, instigante, bem dirigida, bem desenhada artisticamente e que pode figurar entre os grandes jogos do subgênero dos metroidvanias dos últimos anos.

Publicado pela internacional Graffiti Games, o contentamento com Elderand não parou nos parágrafos acima. O jogo foi desenvolvido por uma parceria entre dois estúdios brasileiros, a Sinergia Games e a Mantra Filmes. Com um lançamento tão bem cuidado, o Brasil mostra que segue avançando não apenas em termos de consumo externo das mídias de jogos, acessórios e consoles, mas garante que temos, também, um mercado desenvolvedor cada vez mais forte, ativo e que consegue não apenas publicizar nacionalmente, mas garimpa e conquista seu espaço nos mercados estrangeiros.

Uma terra dominada pela corrupção e pelo caos

Elderand já não é mais o que um dia foi. Além de ter envenenado suas águas e destruído vários biomas, a corrupção criou raízes não civilizatórias como vemos em alguns locais em que a mão de obra escrava foi utilizada, fazendo com que diversas pessoas enlouquecessem. Com isso, restaram bem poucos locais em que se é seguro caminhar e avançar sem que sejamos atacados e destroçados por criaturas terrenas, do ar e das águas.

Viajamos sete léguas

Por entre abismos e florestas

Por Deus nunca me vi tão só

É a própria fé o que destrói

Estes são dias desleais

O nosso herói, como outros dos metroidvanias, é do tipo silencioso. A maioria dos diálogos, assim, se dá quando encontramos os pouquíssimos vilarejos ainda restantes em Elderand, alguns NPCs soltos pelo mapa ou ainda, claro, nas batalhas contra os chefes que irão tentar intimidar o jogador com palavras frias e ameaças cortantes.

É a verdade o que assombra

O descaso que condena

A estupidez, o que destrói

Eu vejo tudo que se foi

E o que não existe mais

Ao vagar pelas terras de Elderand, com exceção das habilidades que são exigidas para se chegar, entrar ou liberar algum outro local ou sala, temos acesso ao mapa completo do jogo. Vagar por Elderand é deliciosamente divertido, já que, provavelmente inspirado em Elden Ring, há certos trechos que exigem mais perspicácia e talento com o controle por parte do jogador. Os menos fortuitos, provavelmente terão que optar por outras trilhas para fortalecer o personagem, que inicialmente carece de mais habilidades, barra de vida, força, estamina, mana, armas e armaduras.

Tenho os sentidos já dormentes

O povo quer, a alma entende

Esta é a terra de ninguém

Sei que devo resistir

Eu quero a espada em minhas mãos

Em Elderand, os dias, como diria Renato Russo na letra de ‘Metal Contra as Nuvens’, a música que acompanha esta crítica, ‘são desleais’. No jogo, de fato, ‘as virtudes se encontram em outras mãos’, como outrora também disse Renato. Nosso personagem, vez ou outra, se vê “obrigado” a sacrificar pessoas ao longo do jogo para obter itens preciosos pela jornada. Tais sacrifícios, em geral, também funcionam como mini puzzles ao longo de cada mapa. À medida que vamos avançando, precisamos atentar para pequenos segredos das salas para que possamos sacrificar as pessoas que já estão ou foram moralmente condenadas nesta terra já tão sem leis e desgarrada de quaisquer princípios.

Não me entrego sem lutar

Tenho, ainda, coração

Não aprendi a me render

Que caia o inimigo então

Eu sou meeeettaaaaalll, raio, relâmpago e trovãoooo

A jogabilidade é apenas um dos pontos fortes do game. Todos os comandos funcionam hábil e velozmente para que o jogador progrida de forma eficaz pelos ambientes, inimigos comuns, chefes, plataformas e tudo mais que se apresente diante do nosso personagem. E como em outros metroidvanias, aqui podemos andar/correr, dar dash no chão e no ar, pular e dar duplo pulo, atacar, defender, atirar coisas e usar ataques especiais que vão variar de arma para arma, obrigando com que o jogador se atente às descrições de cada uma que for coletando pelos ambientes.

O set do personagem é algo que prima muito por aspectos de um RPG clássico, inclusive. Em vários momentos me vi enrascado entre ir em frente ou voltar de um ambiente para outro sem ter a real certeza do que fazer, pois a barra de vida estava praticamente esgotada e, sem itens de recuperação, me restava arriscar todo progresso em nome de encontrar uma fogueira (olá, jogos soulslikes) para salvar o jogo. Eis que, quando descubro o poder dos anéis, percebi que alguns me garantiam uma pequena porcentagem a mais de vida, me encorajando a seguir.

Estes aspectos de RPG vão se somando à medida que cada item possui determinadas particularidades que garantem a evolução do personagem ao ponto de se passar mais facilmente por alguns chefes. E se algum apresentou novas dificuldades, podemos trocar a armadura, usar um anel que dê mais recuperação de mana, uma espada que suga a vida do inimigo e fornece ao jogador, etc.

O jogo possui até mesmo a sua própria Crissaegrim, a famosa espada de cortes mega rápidos de Castlevania: Symphony of The Night. No caso de Elderand, a espada garante o dash cortante bastante útil para fulminar inimigos mais fracos e quebrar jarros e potes que possuam moedas, facilitando o acúmulo de dinheiro em trechos repletos deles.

No mais, é possível evoluir seu personagem em quatro diferentes aspectos. Vitalidade, que aumenta a sua vida máxima; Destreza, que aumenta a chance de causar dano crítico e também o dano das armas que escalam com destreza; Sabedoria, que aumenta o dano mágico e os pontos de manda; e Força, que aumenta o dano físico e a energia/estamina.

Mais Elderand no futuro?

Fica aqui o meu pedido e súplica: eis um jogo que precisa ter uma continuação ou DLC. Ou que ao menos as equipes da Sinergia e Mantra sigam trabalhando juntas e apresentem uma nova IP em um futuro próximo. Caso não haja uma nova IP no horizonte, Elderand merece ser um novo jogo ou conteúdo adicional. Há mais pedaços desse mundo que precisamos conhecer e desbravar.

Nota
Geral
9.0
elderandElderand já nasceu um pequeno clássico dos metroidvanias. Ainda que sua proposta de jogo não seja inovar, mesmo se utilizando de características básicas de jogos deste subgênero, o jogo não só não faz feio como consegue entregar algo consistentemente interessante, coeso, agradável e desafiador. É uma obra que nos instiga a ir jogando pela fluidez da sua jogabilidade e pela maneira como as coisas avançam sem demoras ou entraves. Corra para Elderand, jogador(a).