Após o sucesso dos três primeiros Uncharted, em 2013 a Naughty Dog lança uma experiência diferente, mais profunda e mais intima, contando a história de dois sobreviventes num mundo pós-apocalíptico: The Last of Us. A jornada de Joel e Ellie no mundo infectado pelo fungo Cordyceps rapidamente conquistou uma base de fãs.

Agora, em junho de 2020, sete anos depois, finalmente temos a continuação dessa cativante experiência. The Last of Us Parte II chegou com altíssimas expectativas, graças à tudo que o primeiro jogo conseguiu conquistar, e com a difícil missão de ser melhor ou equivalente à primeira parte da jornada. Mas afinal, como é a experiência da tão aguardada segunda parte?

Obs.: A análise não contém spoilers da história do jogo, então caso não tenha jogado ainda, fique despreocupado.

The Last of Us Parte II vem com uma proposta bem diferente do primeiro jogo; agora Ellie assume o papel de protagonista, e com ela vêm junto uma série de novos fatores.

Jogabilidade – Combate

A jogabilidade no geral está bem parecida com o primeiro game porém, com Ellie, apesar de termos menos força bruta, temos maior agilidade; Ellie pula e deita, o que não era possível com Joel, e isso torna os combates ainda mais diversificados, com mais opções de movimentação, tanto para quem joga stealth quanto para quem gosta de partir para o tiro trocado.

O modo de escuta ainda está presente, porém menos “potente” dessa vez, deixando ele ainda mais realista. Apesar disso, há um ponto que deve ser observado; as vezes, mesmo ouvindo um inimigo falar, é difícil localiza-lo pelo modo de escuta, o que não faz sentido visto que, se o personagem escuta até os passos do inimigo, não teria por que não ouvir sua voz. Tirando alguns momentos de “desregulagem”, o sistema ainda funciona muito bem.

Há novamente uma boa quantidade de armas disponíveis para se usar no jogo, armas essas que no geral possuem muito baixa estabilidade; visto que os personagens não são especializados em seu manuseio e na grande maioria dos confrontos estão em situação de vida ou morte, isso é esperado. Os upgrades de arma e habilidades do jogador, no entanto, ajudam a balancear essa experiência. Falando em sistema de upgrades, ele continua bem simples. Mesmo jogadores novatos não devem ter problemas em entender como upar suas habilidades e suas armas.

Jogabilidade – Exploração

Em relação à exploração de ambientes no jogo, tudo que o primeiro jogo tinha de bom o segundo reaproveita de uma forma ainda maior. Os cenários para o jogador visitar são significativamente maiores, com muito mais opções de exploração vertical. Em certos momentos do jogo, Ellie tem até um cavalo para auxilia-la à chegar nos pontos desejados do mapa. Destaque também para os interiores, que agora são em sua maioria exploráveis. Viu uma construção no cenário aparentemente fechada? Quebra o vidro de uma janela, entra nela e vai descobrir mais áreas para explorar e procurar por itens.

É satisfatória a sensação de explorar um cantinho aparentemente “vazio” e descobrir um cofre, uma nova arma, colecionáveis ou até mesmo documentos/cartas que nos dão um gostinho sobre outras histórias que aconteceram naquele universo.

Gráficos

Os gráficos de TLOU Parte II são simplesmente incríveis. Por diversos momentos você para ficar apenas apreciando o capricho da Naughty Dog com os cenários criados. Destaque para a mescla entre cenários urbanos e vegetação crescente, que já chamavam atenção no primeiro game e nesse estão ainda mais bonitos.

As escolhas visuais do jogo também são ótimas. O jogo nos leva por caminhos que conseguem encantar, mesmo com todo o contexto cruel daquelas paisagens. Seattle é linda e muito bem detalhada, e o jogo nos dá grande variedade de localidades, desde neve na floresta até praias ensolaradas e todos os ambientes são lindos.

Mas não só de cenários vive um jogo – os seres vivos presentes no game (sejam humanos, infectados ou animais) são de qualidade gráfica altíssima. Nos momentos de uso do modo de foto, dá para termos mais noção ainda do quão realista são os modelos e texturas utilizados pela Naughty Dog no game.

Aqui vai outro detalhe: o modo foto do jogo é bem limitado. Talvez em um momento posterior ao da produção dessa análise a Naughty Dog já o tenha implementado, mas fica aqui o registro. A câmera te dá pouca liberdade de movimentação, dificultando as vezes o jogador a achar o ângulo certo para tirar fotos (aparentemente, em algumas áreas há um limite em volta do personagem que “trava” os locais onde a câmera do modo foto vai).

Efeitos sonoros

Em uma experiência tensa como é TLOU Parte II, os efeitos sonoros têm papel fundamental na hora de construir a imersão, e nisso novamente fica claro o capricho da Naughty Dog com o jogo.

Seja das ocasiões mais perceptíveis como barulho da chuva fazendo um som diferente de acordo com o objeto no qual ela cai, ou o som da água corrente pelo meio das ruas de Seattle até os menores detalhes, como o som da arma de Ellie sendo colocada em cima da bancada de upgrades, os efeitos sonoros são muito bem feitos, e encaixados perfeitamente com as animações que estamos presenciando. Sons de tiro, explosões, itens do cenário se quebrando, o som de uma martelada no rosto de um inimigo, enfim, todos seguem um alto padrão de qualidade, como já é esperado em jogos da ND.

Animações

Os gráficos do jogo impressionam muito, só não mais que o nível de realismo nas animações. Aqui, The Last of Us Parte II alcança um patamar muito superior aos outros jogos da geração.

Ao pegar um item em uma bancada, dá pra ver a mão do personagem de fato agarrando o item e levando ele na mão até a mochila. Ellie tem uma animação específica para cada upgrade de cada uma das armas do jogo. E esse não é nem o principal. Nenhum jogo faz o que TLOU Parte II faz em relação às expressões faciais.

Você consegue ver sentimentos mesmo sem os personagens falarem nada, e não se engane, não são expressões faciais forçadas como emojis, é tudo natural; no olhar, nos movimentos da boca, das bochechas, da sobrancelha…

Em um jogo com esse nível de detalhes técnicos, é bom levar em conta também a ótima atuação dos atores do game, que passam essas emoções para nós jogadores.

Seja em gráficos, efeitos sonoros ou animações, a Naughty Dog faz o que muitas desenvolvedoras de jogos hoje em dia infelizmente esquecem de fazer: prestar atenção e dar valor aos detalhes. Em uma experiência que almeja ser imersiva, isso faz toda a diferença.

Enredo

Todos os fatores citados acima são importantes, e talvez eles até fossem os mais importantes se estivéssemos falando de outros jogos, mas estamos analisando The Last of Us. Seu enredo, sua história, seus personagens… esses são os verdadeiros triunfos do jogo.

O principal ponto a destacar aqui é que a experiência do jogo é muito mais focada no desenvolvimento dos personagens do que na trama em si. Se pudéssemos resumir a trama do jogo na teoria, assim como foi mostrado nos trailers, realmente poderíamos resumir o jogo em uma busca por vingança. Na prática, entretanto, vemos que as relações entre os personagens e seus conflitos internos são os verdadeiros ponto chave da história.

Se você sentar pra jogar The Last of Us Parte II se deixando ser consumido pela história, o jogo vai te causar uma mistura de sentimentos de uma forma que você provavelmente nunca experienciou. É mais do que acontece na cena, é o sentimento que ela te trás. A raiva, o ódio, a sede por vingança, o remorso, o perdão, o amor… Esse é o objetivo da Naughty Dog, e se você entrar de cabeça no jogo é muito capaz que ela consiga atingir esse objetivo: mexer com você.

The Last of Us não é um conto de fadas, não existem super-heróis. O jogo busca o realismo e para isso ele abusa do conceito mais real possível: o mundo NÃO é preto e branco, onde existe o bem e o mal, o mundo é cinza e se alguém é vilão ou herói depende do ponto de vista.

Os personagens do jogo são os pilares, a sustentação para que isso seja possível. Para tudo que acontece no jogo nos é mostrada uma motivação. Diferente do primeiro TLOU, na Parte II não temos os acontecimentos em ordem linear. Primeiro nos é mostrado o acontecimento e só depois nos é mostrado o que ocasionou o mesmo.

É totalmente aceitável que o jogo receba críticas por essa abordagem fora do padrão; ao forçar o jogador a ver o outro lado da história – uma história pela qual se criou repulsa, antipatia – a experiência do jogo pode se perder, se tornar decepcionante ao ponto de que se perca o interesse pelo mesmo. Essa troca do ponto de vista pode funcionar muito bem com alguns jogadores e causar em outros um sentimento contrário.

No fundo, quem definirá se o conjunto da obra valeu a pena ou não, é você, o jogador. Esse é exatamente o ponto que torna a experiência tão única. Mesmo que você tenha levado spoilers, o jogo ainda pode te surpreender muito. O verdadeiro significado de The Last of Us Parte II está no que é entendido nas entrelinhas, nos detalhes, e cabe ao jogador captar esses detalhes. Curtindo ou não as escolhas adotadas no game, é inegável que a Naughty Dog fez um trabalho que causa reações que vão além do que está na tela.

Mais uma obra de arte da Naughty Dog, e certamente um dos melhores jogos disponíveis para essa geração. Forte candidato ao GOTY desse ano e certamente brigará no topo pelo título de melhor jogo do PlayStation 4, mesmo com as duras críticas por parte dos jogadores (o que, como citado antes, é totalmente entendível).