Logo no início de ‘O Território’, entre muitos cortes rápidos já no primeiro minuto, e que são comuns à linguagem audiovisual, uma imagem adquire as rédeas da nossa percepção e se congela por alguns longos segundos para fixar nossa atenção em algo, quebrando a lógica até então existente: é a perturbadora imagem de uma grande árvore indo ao chão após a ação humana de dar-lhe um fim. Uma motosserra é o instrumento escolhido para encerrar a conexão daquela árvore com aquela área, com aquele chão e com o planeta Terra.

Em outro momento, nos arrebata emocionalmente a imagem de crianças correndo em meio à floresta como se o brincar delas fosse natural (e é, afinal, são crianças) ao ponto de parecer que não há, ali, ameaça alguma. A circunstância estética da filmagem emula o drama, visto que os posicionamentos da câmera, seus ângulos e planos, fazem parecer que estamos vendo uma obra ficcional, tamanha a poesia que há nos enquadramentos das crianças correndo. Essa decisão cria uma subcamada que, ao fazer o documentário se aproximar da ficção, também esfarela o nosso emocional ao nos fazer perceber, em diversos outros instantes, que o que estamos assistindo é um documentário sobre ações — desumanas — que não deveriam acontecer ao povo e às terras.

Documentário cujos direitos foram adquiridos pela poderosa National Geographic, ‘O Território’, entre seus produtores, possui o cineasta Darren Aronofsky (diretor de cultuados filmes como ‘Requiem Para um Sonho’ e ‘Cisne Negro’). Com o apoio internacional da National e a produção de Darren, o documentário poderá vir a ser lembrado com uma indicação ao Oscar de Melhor Documentário para a premiação em 2023, quem sabe.

A saga dos Uru-Eu-Wau-Wau: da dizimação temporal ao medo

Na década de 80 do século passado, o governo brasileiro teve o seu primeiro contato com alguns milhares de índios uru-eu-wau-wau. Dos milhares de índios da tribo encontrados à época, atualmente, restam apenas menos de duzentos. Mais precisamente, cerca de 180, pelo que relata um dos entrevistados da obra. O que restou do território uru-eu-wau-wau foi uma ilha de florestas chuvosas cercada por fazendas, desmatadores, grileiros e o puro suco de capitalismo desenfreado e assassino.

Assim, em não tendo se vivido os últimos anos dentro de uma bolha em que a obtenção de informações era severamente escassa ou proibida, você certamente terá alguma mínima noção do quão vilipendiadas e devastadas as florestas e matas brasileiras andam sendo. E mais: o aumento no número de mortes e desaparecimentos de ativistas ambientais e indígenas também aumentou desesperadamente.

Tribo indígena do Uru-Eu-Wau-Wau

Diariamente, muitas vezes distante das câmeras da grande mídia, da vigilância do Poder Público e dos olhares da população, nosso verde vai sendo substituído pelo marrom da terra arrasada e enlameada. Nunca foi por falta de aviso: órgãos de defesa ambiental do Brasil e fora dele sempre alertaram para o inconsequente perigo existente em causar, desmedida e desenfreadamente, a morte do nosso verde, das nossas plantas e florestas e a consequente contaminação dos nossos rios.

Ora, para além dos órgãos internacionais, ativistas deram suas vidas para tentar denunciar e desbaratinar tamanha violência ao nosso ecossistema. Chico Mendes, Dorothy Stang, Bruno Pereira e Dom Phillips são apenas alguns dos nomes mais conhecidos, de tempos mais recentes ou não, que perderam suas vidas para defender que a atual e as próximas gerações pudessem viver em um Brasil que respeite o seu chão, suas matas e os seus povos originários, segmento populacional (também) constantemente ameaçado por, na ótica de grileiros e desmatadores, serem vistos como meros impedimentos ao avanço do Brasil (leia-se: impedirem o avanço da destruição mais desumana e cruel das matas e dos povos).

Em boa parte, é sob a ótica dos defensores que ‘O Território’ se dá. Em seus menos de noventa minutos, o documentário de Alex Pritz (diretor de fotografia que faz a sua estreia na direção de um longa-metragem) nos apresenta à figuras corajosas e destemidas como Ivaneide Bandeira, a ambientalista carinhosamente conhecida como Neidinha, e Batité, um jovem uru-eu-wau-wau. Sob o olhar de ambos, o longa nos direciona para os horrores cotidianos de todo aquele entorno e das vidas ligadas àquelas terras.

Há um paralelo e simbolismo bastante tocantes nas relações que Batité e Neidinha mantêm com seus familiares. Se Batité, por exemplo, olha para trás ao conversar com o seu avô sobre os perigos que sua tribo já enfrentou no passado, Neidinha vislumbra o pesadelo do futuro que pode existir para a sua filha se ela, por tabela, for vitimada pelo ativismo ambiental de sua mãe. E, para o espanto geral de Batité e Neidinha, mesmo que depois do passado e ainda antes do futuro, é no presente que pode residir e reside o maior perigo para a tribo, para as terras, para Neidinha, Batité e suas famílias: e eleição presidencial brasileira do ano de 2018.

E é sob medo, e também após a constatação que o horror imperará, que ‘O Território’ se divide como também se dividem as terras com ainda um belo verde florestal e um intenso marrom de devastação. Com o fascismo norteando as ações, mandos e desmandos a partir do salão presidencial, sabemos que o aumento no número de queimadas, extrações indevidas, invasões de terras e outras insanidades ambientais aprofundaram-se no Brasil. Com isso, ‘Território’ sai do purismo dramático de uma fantasia pueril para o caos de um filme de guerra. O que vemos, em muitos momentos, chega a lembrar as tomadas aéreas de Apocalypse Now, o famoso filme americano da década de 1970.

Cena de ‘O Território’

A crueldade humana, a partir do maquinário predatório, passam a ocupar o chão que, no início de ‘O Território’, era dos pés e das pernas de crianças inocentemente felizes. Somos convidados a atestar o holocausto ambiental das terras que, muito antes de “serem” das cidadãs e cidadãos do Brasil, pertenciam aos seus reais benfeitores — pois sempre foram mais que proprietários, estando além e acima disso —, os povos originários, como os uru-eu-wau-wau.

A desterritorialização em ‘O Território’

Vencedor do Prêmio do Público e do Prêmio Especial do Júri no Festival de Sundance 2022, ‘O Território’ é um filme sobre legados. Tanto o legado coletivo e de imensa resistência do povo uru-eu-wau-wau, como o legado individual de pessoas tão destemidas e apaixonadas pela herança dos seus povos e pela proteção ambiental, como Neidinha, Batité, Ari (este assassinado) e outros personagens reais da triste história da devastação das terras uru-eu-wau-wau e dos conflitos entre ativistas e índios sendo dizimados por madeireiros, grileiros e fazendeiros. E que contaram ainda com a anuência de um governo abertamente contra o meio ambiente, o ativismo e os povos originários.

Que o mundo, com ou sem indicação ou prêmio no Oscar, possa ter acesso aos horrores, mas, mais ainda, à coragem destas pessoas tão valentes e necessárias ao presente e ao futuro do Brasil e do mundo.

Nota
Geral
9.0
o-territorioBelo sempre que possível, necessário e atual, 'O Território' é um alerta global para os perigos que rondam o ecossistema do Brasil. Para além de preservar a nossa cultura ambiental, a Amazônia e suas terras e florestas são, como se costuma dizer até de forma clichê, o 'pulmão do mundo'. Para além do clichê, 'O Território' é repleto de cruéis verdades que precisamos ir digerindo a cada minuto do longa-metragem.