Em geral, histórias que tratam sobre a história de qualquer guerra, tendem a trazer, em suas narrativas, toda uma série de desgraças que atravessam a vida de um ou mais personagens. Não há, quando se preza pelo retrato fidedigno de períodos históricos tão conturbados, muitas possibilidades de se rumar para algo adverso.

Felizmente, em meio às tragédias humanas deixadas por períodos tão sombrios, também há histórias que carregam tons um pouco mais esperançosos. E histórias esperançosas também precisam ser contadas.

A produção holandesa ‘Três Mulheres: Uma Esperança’, possui, em seu cerne, a missão esperançosa de ser um retrato menos trágico, mais humanista e mais pessoal das agruras da Segunda Guerra Mundial (e em seu período/ano derradeiro).

Na história, acompanhamos a jornada da judia Simone, da soviética Vera e da alemã Winnie, três fortes mulheres que carregam consigo seus próprios objetivos, necessidades e dores.

E é na falta de expectativas em relação às próprias crenças e jornadas, que estas mulheres encontrarão o conforto da companhia uma da outra em meio às possibilidades latentes de extinção das próprias vidas. Tal conforto não virá antes de certo estranhamento e dos sentimentos de dúvidas que pairam no ar sobre o caráter de cada uma, claro.

Mas, apesar de ter um contexto histórico bastante específico em seu background, o longa metragem pouco faz uso deste para poder aprofundar o que está contando ou ir somando fatos históricos à ficção contada.

Contudo, as agruras e horrores de uma guerra estão lá: fome, doenças, medo, incerteza sobre o dia seguinte, separação de entes queridos e mais.

No mais, ou melhor, no menos, o filme usa o contexto intimista das três mulheres para que nos aproximemos o quanto for possível delas. O que é bem-vindo, pois, em um filme de orçamento limitado, fazer uso dos pormenores é uma saída para apresentar, dentro do contexto global, o contexto local e mais específico.

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E é por se dedicar tanto às três protagonistas que o filme consegue, sem dificuldades, passar no chamado Teste de Bechdel. Criado pela quadrinista/cartunista Alison Bechdel, lá em 1985, o teste nasceu justamente para provocar, na indústria hollywoodiana, a percepção do quão problemáticas eram as histórias daquela época, até então.

O teste, para quem porventura não saiba, consiste em propor que a obra cultural, seja ela de qual mídia for, utilize-se de três diretrizes para se mostrar apta a vencer o teste.

As condições são as seguintes

  1. Que a obra tenha ao menos duas personagens femininas;
  2. Que conversem entre si em alguma cena;
  3. Essas mulheres conversam entre si sobre algum outro assunto que não sejam homens?

Na realidade, ao menos em um momento específico entre as três mulheres, elas começam a tratar sobre uma quarta mulher. Isso mostra que o roteiro é bem cuidado ao ponto de não apenas valorizar as suas protagonistas, mas, além disso: recorre, quando necessário, à outras forças femininas do tempo histórico em que a obra se passa para engrandecer as diretrizes do Teste de Bechdel.

Ao fim, é possível que compreendamos que se as dores mostradas são relativamente individuais e “egoístas”, as alegrias, as poucas que sejam e surjam, mesmo e principalmente mediante o contexto histórico do filme, são alegrias coletivas e, como o próprio subtítulo nacional do filme indica, são também esperançosas.

Nota
Geral
5,5
tres-mulheres-uma-esperancaVEREDITO: apesar da produção ser e soar financeiramente limitada, a mesma limitação instiga a construção de uma narrativa voltada a enxergar, de forma bastante microscópica, o íntimo e a vida das três mulheres que protagonizam o filme.