Legado talvez seja a palavra que mais ronde todo e qualquer filme da franquia Pânico após o longa original. E quando falo em legado, é preciso lembrar que este legado não é apenas o industrial: ou seja, o de sempre fazer filmes melhores, maiores e que respeitem as tradições ao mesmo tempo em que o novo é apresentado.

Estamos falando de um filme que opera a partir da metalinguagem em termos narrativos – dentro do próprio contexto dos seis filmes –, bem como em termos industriais – negociação com diretores que possam estar à altura de substituir Wes Craven, diretor dos quatro primeiros longas da franquia, além do rejuvenescimento do elenco para garantir novos filmes.

Pânico, assim, além de continuar sendo um filme sobre outros filmes, gêneros e que brinca com a própria estrutura, as convenções e os clichês dos filmes slashers, passou também a ser, principalmente desde o quinto filme, um produto autorreferencial.

O filme anterior, assim como o novo, são dirigidos pela dupla Tyler Gillett e Matt Bettinelli-Olpin. Juntos com o produtor executivo Chad Villella, Tyler e Matt formam o trio conhecido como Radio Silence.

O retorno da dupla de diretores assegurou o rápido processo de lançamento dos dois filmes em um prazo bastante reduzido. Só um ano se passou entre o lançamento do quinto filme e as filmagens e lançamento deste sexto. E já com o sétimo capítulo já tendo sido anunciado.

Novas regras para um novo filme

Em um novo cenário, Samantha (Melissa Barrera) e Tara Carpenter (Jenna Ortega), as irmãs sobreviventes do filme anterior, voltam ao lado dos também irmãos – e também sobreviventes – Mindy (Jasmin Savoy Brown) e Chad (Mason Gooding, filho do Cuba Gooding Jr.).

Woodsboro, o local em que se passam os outros filmes, agora deu lugar à gigantesca Grande Maçã, Nova York, cujas infinidades de possibilidades poderiam ampliar ainda mais as inventividades que um filme desta natureza busca.

Uma pena, porém, que o filme subtilize-se de NY de forma puramente burocrática. A constar pelo início do filme, poderia parecer que a mudança de ares seria algo para além da simples mudança geográfica e traria a cidade como uma importante operadora do processo visceral de caos que estava prometido. Não é bem o que acontece.

As mudanças impostas acabam sendo bem mais no terreno da fisicalidade da ação, das mortes e do uso de qualquer coisa como arma (algo visto desde os trailers do sexto filme).

Porém, há ainda duas coisas que importam e importarão para a continuidade da franquia, independente do trio Radio Silence continuar à frente desta nova trilogia para além do sétimo filme: Jenna Ortega e Melissa Barrera. Se Melissa Barrera está sob os holofotes, hoje sabemos, contudo, que Jenna Ortega é que é a grande estrela do sexto filme.

Quando do lançamento do filme anterior, a exposição midiática, as pessoas, a série da Wandinha e o papel em ‘X – A Marca da Morte’ ainda não haviam transformado Jenna Ortega na estrela que hoje ela é. Por sorte, se o sétimo filme tomar certo caminho que o sexto aponta, talvez não seja necessário que tenhamos uma divisão de protagonismo entre as ‘final girls’ (expressão usada para designar as protagonistas femininas que sobrevivem nos filmes de horror e suspense, como a Sidney Prescott da Neve Campbell, por exemplo, ou ainda a slasher queen, Jamie Lee Curtis, pela franquia Halloween).

Essencialmente, Samantha, a personagem da atriz Melissa Barrera, segue sendo a principal protagonista do longa. Entre ela e Tara (Ortega), é esta última que primeiro desponta em cena na cold open do filme.

Ainda que as duas sejam as mais afetadas pelos acontecimentos do filme anterior, o quarteto de jovens muda-se para NY justamente para deixar o passado recente para trás. Uma nova cidade aspira por novas leis, acontecimentos e, claro, não poderia deixar de ter, novos crimes.

É nesse contexto de novidade que o filme entende o culto sob si mesmo e joga coisas na tela que tanto servem para os velhos fãs como para os novos. A autoindulgência abraça tanto quem acompanha a cinessérie Pânico desde os anos 90 como também para quem passou a conhecê-la somente a partir do quinto filme.

Old habits die hard

Assim como o quinto filme possuía raízes íntimas com o longa original, este sexto filme possui paralelos com o segundo filme da franquia. E se em Pânico há raízes, há também personagens do elenco original retornando, claro. Gail Weathers, a famosa jornalista que está desde sempre em todos os filmes, interpretada pela atriz Courteney Cox, segue sendo a personagem que, dentro do contexto dos filmes, os personagens amam odiá-la (até que ela se prove útil à compreensão dos acontecimentos).

Além dela, há o retorno da adorável Kirby Reed (Hayden Panettiere), uma das principais personagens do quarto filme. No sexto filme, Kirby volta repaginada e poderá, potencialmente, ocupar o lugar que fora do policial/xerife Dewey Riley (David Arquette), ausente da franquia desde o quinto filme.

Com a divisão do protagonismo para as irmãs, o longa parece não sentir a ausência da sua principal protagonista, Sidney Prescott (Neve Campbell). O filme rapidamente justifica sua ausência em um diálogo tão casual que sequer parece que Sidney possui a importância que tem para a saga. Seguir sem Sidney, sem um merecido encerramento, é trair justamente aquilo que o filme tanto preza: o seu próprio legado. Que um novo acordo seja proposto para que Campbell possa voltar ao principal papel da sua carreira.

A singela brutalidade de Pânico VI

O sexto filme consegue estabelecer duas propostas que comungam e se distanciam e entre si ao mesmo tempo. Uma das propostas passa pela personagem de Melissa Barrera. Já a outra, é inerente ao filme como um todo.

Comecemos pela última proposta. Este novo capítulo da franquia apresenta uma visceralidade em suas cenas de ação e mortes não vista até aqui. A maneira como as mortes acontecem impede qualquer rastro de sutileza. Tudo é hiperbólico e superlativo. As facadas e perfurações vêm acompanhadas de dezenas de outras facadas e perfurações. É como se todo ato de ataque ou legítima defesa já viesse acompanhado por uma imensa raiva que quer por fim, ao custo que for, às vidas ou às perseguições e perturbações. Dessa forma, um corpo, ao ser atacado, precisa ser apunhalado ao máximo.

Certas sutilezas também ganham espaço. Desde o longa anterior, por exemplo, Samantha Carpenter é espiritualmente instruída por seu pai, Billy Loomis (Skeet Ulrich), o assassino original. Trazer o ator original foi um acerto. No campo da imaginação e das visões a partir de todo o estresse pós-traumático que Samantha carrega, não estranharia se víssemos, no sétimo filme, aparições físicas de Billy para Samantha, reforçando ainda as disfunções mentais que o quinto e o sexto filmes estão sutilmente plantando diante de nós.

E ainda que estas aparições possam não soar tão sutis assim, estamos falando de um plot narrativo que coexiste com outros plots narrativos já há dois filmes. Existe um padrão de revisita ao assunto e também, ainda mais claramente no sexto filme, há até um aprofundamento desta nova realidade de Samantha, que pode ocasionar, no próximo Pânico, uma virada de chave para o status da personagem. Indícios cada vez mais se somam.

Nota
Geral
7.0
panico-6O novo filme, apesar de não se encaixar entre os melhores da saga, consegue abraçar outros filmes, como o primeiro, o segundo, o quarto e o quinto. Além disso, com tudo que aqui é mostrado, espera-se que o sétimo longa-metragem avance no desenvolvimento da personagem de Melissa Barrera antes que ela perca ainda mais espaço para a personagem da Jenny Ortega. Antes disso, a equipe de produção e Neve Campbell precisam também fazer as pazes. Ganharão os fãs, os novos e os antigos, com o retorno da atriz e personagem.