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Análise: XEL

XEL

Existe uma magia no mundo dos jogos que faz com que você logo de cara se sinta atraído por um determinado jogo só de olhar para uma imagem conceitual, uma screenshot ou um trailer.

O termo ‘hypar’ tomou conta da cultura pop nos últimos anos, e não é pra menos. Por muitas vezes eu acabo pegando no fato de que “eu tô consumindo muito isso aqui antes mesmo de consumi-lo de fato”. O jogo sequer já foi lançado, o filme sequer estreou ou você sequer já leu todo o livro. Mas você ‘hypa’ e não tem jeito. Eu não sou diferente. Talvez seja mais até mesmo do que você.

Com XEL, um novo jogo independente desenvolvido pela Tiny Roar, e que estará disponível no PC, Playstation, Xbox e Switch a partir de 11 de julho, eu fui vendido antes mesmo dos primeiros 10 segundos do seu trailer de anúncio acabar. Tudo ali me fazia sentir em casa. Lógico, para um fã da franquia Zelda não tem como não ficar sedento para colocar as mãos nesse jogo.

Xel é um jogo de ação 3D com visão top-down e que nem disfarça a sua clara inspiração nos jogos clássicos de Zelda. Mas isso é um ponto positivo caso você tenha uma história interessante para contar, crie um bom mundo em torno disso e execute tudo de maneira correta. Mas será que XEL conseguiu esse feito?

Wake up,Link  Reid

Aqui você tem até a sua própria Navi, mas em um mundo onde as máquinas tomaram conta da vida orgânica, ao invés de uma fadinha, você conta com um simpático robozinho que será seu companheiro na sua jornada de descobrimento. Ele será inclusive o seu primeiro contato após você naufragar nesse planeta desconhecido.

Não vai demorar muito até que você encontre um nativo que te leve até uma vila. Conversando com esse personagem você então “escolhe” o seu nome. Bom, já que você não se lembra do seu nome, nada mais justo do que nomear-se, não é mesmo?

Mas voltamos para a semelhança com Zelda. Você acha que todo esse prólogo e gênero bem parecido era pouca referência? Então que tal vagar por um lugar sem estar com nenhuma arma equipada até que você encontre uma ali de graça, esperando por algum protagonista para tirá-la da pedra? Tudo bem, eu gosto e me sinto mais em casa ainda.

Com uma arma na mão você rapidamente encontra seus primeiros inimigos e aí é onde as semelhanças com Zelda acabam e a jornada começa, mas com requintes de crueldade para o jogador.

Controles estranhos contra inimigos esquisitos

O combate em XEL no trailer parece ser muito bom e viciante. Mas na prática, ele se torna um problema. Tudo começa com a disposição dos botões no controle. Ao invés de usar botões mais normais para ataque, esquiva e bloqueio, o jogo opta por algo completamente diferente.

E o pior de tudo isso é que você sequer pode mudar as atribuições das teclas. Esse já era um pedido dos fãs que puderam testar a demo do jogo um mês antes do lançamento. Mas tudo bem, com controles você pode se acostumar certo? Bom, nem tanto. Se o combate não for bom, isso só vai ser mais cansativo. Não me entenda mal, XEL tem um combate interessante para um jogo de ação em 3D, mas ao mesmo tempo, tem uma IA inimiga completamente burra e que não vai lhe causar nada, além de cansaço.

Esquivar-se se torna uma raridade pois você pode apenas ficar batendo e correndo contra a pouca variedade de inimigos no jogo. Eu diria até que o jogo poderia funcionar muito melhor caso fosse apenas um jogo de exploração, sem combate mesmo. Abrisse mão dele pra sempre e me deixasse apenas seguir meu caminho em um mundo lindo.

Um deleite para os olhos

Se tem uma coisa em que XEL acerta em cheio, é em sua direção de arte. O jogo é realmente esplêndido nesse quesito. É gratificante andar por esse mundo criado pela Tiny Roar. E é nisso onde o jogo consegue te esquecer que ele teve Zelda como sua principal fonte de inspiração. O estúdio realmente criou um mundo cativante e que te dá muita curiosidade para explorar.

Além de bonito, XEL tem uma forma de contar história muito interessante. Tudo bem que se trata mais uma vez de uma jornada do herói. Mas nesse caso, ele toca em questões bem mais pessoais. O próprio jogo tem um aviso antes mesmo de você chegar no menu principal, dizendo que ele pode causar gatilhos emocionais em muitas pessoas devido alguns assuntos abordados de forma bem sutil e que você vai descobrindo aos poucos.

Mais uma vez, se eu falar sobre essa jornada de descobrimento pessoal, pode estragar muita coisa do jogo para o leitor. Mas saiba que você está diante de uma história que pode sim, lhe comover bastante, ou até mesmo causar muita identificação com certas pessoas.

Os personagens não ficam de fora desse ar de cativação que o jogo proporciona. Reid é uma garota piadista, empoderada e doida por aventura. Na vila você vai encontrar NPC’s que irão te cativar bastante e lhe fazer querer saber um pouco mais da história de cada um. E por falar em personagens, não posso deixar de dizer que a arte do jogo é muito acertada no modelo de cada um. Em alguns momentos de cutscenes, me lembrou bastante filmes da Dreamworks.

Lá e de volta outra vez

Como não poderia ser diferente nesse gênero de jogo, você irá percorrer muitas vezes os mesmos ambientes para conseguir cumprir objetivos, desbloquear habilidades e dar a você acesso a novas áreas de jogo. Conseguindo novas habilidades, você poderá passar por obstáculos e derrotar os inimigos de formas diferentes ao longo do gameplay.

Em geral, XEL realmente conta com um sistema de combate completo com ataques, combos, parry e a possibilidade de desviar dos ataques. O problema, como dito acima, é que nisso ele não é tão equilibrado. As suas armas e equipamentos como espada e escudo poderão ser melhoradas para desbloquear novos combos. E apesar de não ser tão interessante contra minions e adversários mais frágeis, nas lutas contra chefões podem ser muito úteis.

Os puzzles de XEL são realmente super bem elaborados e gratificantes de serem solucionados. O jogo usa bem os elementos como água e ar para tornar o gameplay e exploração mais duradoura. Por exemplo, se nos deparamos com uma poça d’água próxima de um fio de tomada que está do outro lado de uma grade, que tal usar um equipamento que transmite eletricidade e usar a água como condutor até chegar na tomada? Voilá! Eu sei que já vimos isso em vários outros jogos, mas eu ainda acho muito bom quando jogos lhe dão esse tipo de liberdade. E XEL entrega isso muito bem.

Uma dobra no tempo? Algo que me pegou de surpresa no jogo foi o fato de que em um determinado momento eu me deparei com rachaduras no meio do mapa e um aviso para eu apertar um botão no meu controle. De repente, aquele mundo sci-fi pós-apocalíptico estava novinho em folha.

Agora sim o jogo começava a tomar rumos que eu jamais imaginaria. Então eu de alguma forma tenho o poder de, apenas em determinados e pequenos lugares do mapa, posso voltar ao passado e assim resolver puzzles. Isso sem dúvida alguma ficou me martelando e me deu muita vontade de explorar ainda mais esse mundo cheio de mistérios.

Relação de amor e ódio

Infelizmente apesar de bonito, de ter personagens cativantes, um mundo curioso e uma narrativa interessante, XEL ainda é um jogo. E por ser um jogo, ele precisa se comportar como um jogo. E quando eu critico isso, é pelo fato de ele ter mecânicas bem datadas. Eu entendo toda a nostalgia do estúdio, tentando nos proporcionar uma experiência de um Zelda clássico com uma roupagem nova e uma história boa a ser explorada. Mas o rumo tomado em XEL pode causar cansaço em muita gente.

Ao invés de checkpoints, o jogo conta com savepoints. E onde mora o problema nisso? XEL é um jogo em que você precisa percorrer longos caminhos, ultrapassar obstáculos, carregar um item daqui até ali, usar suas habilidades em determinados lugares, até que você possa acessar um outro lugar. Se isso fosse algo a ser feito apenas uma vez, seria ótimo.

Mas experimente morrer uma única vez no jogo, e você será transportado de volta para o seu savepoint e então terá que refazer isso tudo de novo. Até mesmo derrotar os mesmos inimigos em um combate preguiçoso, como já citado acima.

Infelizmente o jogo optou por uma mecânica punitiva, em um gênero que ao meu ver não encaixa muito bem. XEL é mais sobre solucionar puzzles, adquirir novas habilidades e explorar um mundo muito bem desenhado, do que necessariamente derrotar minions. Ao morrer o jogo simplesmente reseta e você começa de onde salvou e aquela porta que você acabou de gastar 15 minutos para abrir e foi gratificante pela primeira vez, você terá que gastar os mesmos 15 minutos para fazer a mesma coisa. E de novo, e de novo, e de novo.

Em muitos momentos eu me peguei com raiva do jogo e fechando ele, mas pouco tempo depois abria novamente porque eu estava sempre curioso para saber até onde aquela jornada poderia me levar. E convenhamos, que no ano de 2022, alguns vícios que existiam há décadas atrás por limitações técnicas, poderiam ser justificados de outra forma.

Conclusão

Lindo de morrer, com um combate preguiçoso para danar e com um mundo que causa curiosidade a se explorar, XEL não consegue manter o equilíbrio no que se propôs como jogo de ação em 3D com exploração, puzzles e dungeons. Em determinados momentos ele te enche de inimigos fracos para você bater e gastar tempo sem receber muita coisa em troca, e em outros momentos você está quebrando a cabeça com puzzles super bem elaborados e querendo saber mais de uma história nova.

O jogo apresentou vários bugs durante o tempo de jogo que tive para escrever essa análise, o que me fez perder muito tempo voltando no meu save point para realizar as mesmas ações que eu havia feito minutos atrás. Poxa, uma escada que eu levei 10 minutos para colocá-la em um outro andar ficar de forma persistente no mundo mesmo após a minha morte? Pode parecer besteira, mas após horas de jogo se torna cansativo.

Por mais que existam muitos problemas em torno de sua execução de gameplay, XEL ainda despertou minha curiosidade devido sua história muito pessoal na qual eu me identifiquei bastante. É um jogo sobre procurar o seu lugar no seu próprio mundo, sobre entender suas limitações e tentar jogar fora coisas que não lhe servem mais.

Esta análise foi feita graças a uma cópia cedida pela Assemble Entertainment. Agradecemos pela confiança em nossa equipe.

Nota
Geral
6.0
xelXEL conta com uma clara inspiração em Zelda e entrega um mundo sci-fi muito bonito e uma história bem interessante. Mas peca bastante na execução do seu gameplay e combate, que pode ficar cansativo durante o tempo.