De palácios para prisões

O Joker e sua gangue de “Phantom Thieves” voltam para a alegria de uma porção esmagadora de fãs pelo mundo. Persona 5 foi lançado originalmente para o PS3 em seu final de geração. No ano de 2020, recebeu um relançamento com o nome de Persona 5 Royal introduzindo mais de 30 horas de conteúdo para os mais de 100 que já existia no Persona 5 base.

Além de aprimorar algumas mecânicas e facilitar um pouco a dificuldade do jogo. Observando todo um cenário de um jogo numerado com mais de uma versão, logo, concluímos que a sequência seguinte seria algo apenas para quem jogou e sabe de cor e salteado toda a história de Persona 5 certo?

Bom, não é bem assim, no início de 2020, tivemos o lançamento de Persona 5 Scramble no Japão. Logo em seguida, foi anunciado a versão para o ocidente trocando o Scramble pelo Strikers. A notícia boa dessa complexa ordem cronológica de lançamentos da franquia, é que agora é possível para os novatos na série, jogarem sem ficarem muito confusos.

Isso porque em Strikers, os eventos do Royal são ignorados. E só são mantidos a party do persona 5 base, ou seja, só se perdem as histórias de origem dos personagens que podem muito bem ser jogadas no base após a conclusão deste. Para isso uma simples sinopse situará os futuros Phantom Thieves.

Um grupo de jovens resolve passar um período de férias escolares juntos. Percebemos por razões óbvias que eles se conhecem e tem um grau alto de amizade, já que passaram por diversas aventuras nos semestres anteriores.

Esse grupo é conhecido por todo o Japão por mudar corações. Ou seja, quando eles recebem informações de atos inadmissíveis e horrendos como abuso, extorsão entre outros. É a hora de agir. Utilizando-se de uma Inteligência Artificial desconhecida e misteriosa, eles mais uma vez voltam para o metaverso e cancelam seus planos de férias.

O metaverso pode ser chamado de o universo das almas, onde as máscaras que escondem a verdadeira faceta de cada ser humano são reveladas em sua forma real. Essas são as personas. Servindo como os summons se fossemos traçar um paralelo com a franquia Final Fantasy mas apenas por utilizá-los na luta como mascotes e não por como foram originados.

Nesse verso o mundo real e suas ambientações se modificam e um ser humano ruim por exemplo, cria um palácio que aqui é chamado de prisão, o que acaba significando a mesma coisa. O objetivo em cada uma dessas prisões é adentrar até a sala onde o dono desse local está. Em sua forma de persona, normalmente um design bem diferenciado.

Para poder destrancar essa sala do boss é necessário passar por alguns desafios e as vezes por rápidos puzzles de ambiente. Entre idas e vindas do mundo real para o metaverso, antes de confrontar o chefe em sua forma final.

É preciso encontrar o local onde o seu maior trauma, por vezes o causador de seu comportamento inadequado ou até desumano, está escondido, podemos considerar essa batalha como a de um sub-chefe.

Em seguida uma mensagem dos Phantom Thieves é enviada para esse personagem com a alma corrompida por maldade, para o caminho ficar livre e por fim mudar o seu coração. Esses três parágrafos já são suficientes para ambientar o jogador na dinâmica do game sem ficar perdido na história.

Transformando Musou em Persona

Ao iniciar o game pensei: “Ok, vou jogar um Musou de Persona.” Mas não foi o que aconteceu. A série é tão criativa e bem estruturada, capaz até de transformar um gênero. Para quem nunca ouviu falar de Musou. Ele é basicamente um game de combate Hack and Slash enfrentando infinitas hordas de inimigos e capturando pontos de controle no campo de batalha.

Nesse ritmo por horas a fio. Esse combate em sua essência existe em Persona Strikers e paramos por aí nas semelhanças. Ao pegar emprestado o Hack and Slash substituindo o combate de RPG por turnos. Persona Strikers implementa seu estilo e faz com que batalhas de esmagar botão se tornem inteligentes e bem difíceis.

Para quem já e familiarizado no estilo Musou e gostar dele, pode ficar um pouco decepcionado, pois se sair em modo automático de ataque não vai durar nem a longa dungeon de introdução.

Desde o começo da aventura a party está toda disponível para o jogador. São 7 personagens jogáveis e 1 de suporte (controlado pela CPU). Cada um tendo características e combos distintos. Sendo bem diferente uns dos outros, porém, algo muito frustrante nesse aspecto é que os levels não sobem caso você não utilize os personagens na sua equipe principal composta de 4 personagens.

Isso não dificulta a campanha, apenas intimida o jogador caso ele queira mudar constantemente de party, levando-o a uma inevitável fadiga com o farm excessivo.

Pontos fracos e fortes de acordo com o elemento que o persona adversário e seus personagens possuam, fazem toda a diferença. Já que ao ser atingido dezenas de vezes em seu ponto fracos, os oponentes baixam a guarda para um all attack ou um showtime.

Golpes especiais da franquia fundamentais para o sucesso da batalha. Um outro elemento, o baton pass que troca de personagem no meio do ataque criando combinações bem poderosas, funcionam de maneira fluída mesmo tendo sido transportada dos turnos para o Hack and Slash.

O Joker, protagonista do game, pode ter vários personas, assim como fundi-los, aumentar o level dos personas tem uma nova forma de ser feita, através de pontos ganhos ao fazer fusões e cumprir alguns requisitos além da experiência de batalha.

Os chefes brilham em estilo, animações caprichadas de golpes e frases típicas de chefes clássicos. As estratégias para vencê-los não possuem muita criatividade, assim como, qualquer oponente do game, achar suas fraquezas e usar ataques em grupo nelas bastam para derrotá-los, porém, vai demorar algum tempo já que eles têm uma barra de HP bem elevada.

Apesar da repetição em termos de estratégias de luta, o combate é viciante e insano, em poucas horas o jogador fará combos bem rápidos entre os personagens causando muito dano em hordas malignas. As comidas para recuperar HP e SP dificultam o nível geral do game, por possuírem um alto valor para comprá-las na lojinha e raramente são dropadas nas batalhas.

Especialmente as de SP, que aumentam os pontos de magia. Essas são raríssimas. Alguns checkpoints dentro das dungeons e habilidades específicas tentam amenizar esse efeito, mesmo assim, Persona 5 Strikers pode ser considerado um jogo difícil e de longo aprendizado.

Um álbum memorável em uma capa antiquada

A trilha sonora de Persona empolga e incentiva o jogador a passar por um início lento para chegar a grandes batalhas e curiosos ambientes para explorar. Impecável o trabalho musical aplicado no game em todas as canções, tanto as recicladas dos jogos passadas, como também, algumas inéditas. Sem dúvida alguma são músicas que ficarão em minha playlist por um bom tempo.

As animações de personagens, cenários e menus são bem autorais e magníficas. Tudo nesse game parece ganhar vida em cores tão bem escolhidas. As animações em estilo anime, em cenas importantes da história despertam aquele sentimento do “vou jogar só mais um pouquinho”.

Mas como nem tudo são personas de nível alto…há um desgaste visual durante toda a parte controlável pelo jogador. Serrilhados do início ao fim, só relembram o quão antiga é esta estrutura. A mesma do Persona 5, ou seja, geração PS3 e já estamos no começo da geração PS5, então um capricho técnico visual é necessário. Fora isso, nada de bugs ou crashs. A performance está ótima.

Reciclando e simplificando tudo o que for possível

A série é marcante por seus complexos sistemas dentro do jogo, pautados por horas de tutoriais. O mesmo ocorre em Strikers. Eu diria que a introdução das mecânicas gerais do game só se encerram em umas 9 horas de campanha.

O sistema de bounds que seria os relacionamentos com personagens do game está presente, mas de maneira bem mais simplificada. Aumentando automaticamente conforme se avança na história. O que pode ser liberado com esses pontos são parte essencial da estratégia de jogo.

Existem power-ups de ataques dos personas, aumento nos atributos, barra de carregamento do golpe especial e pode revelar novos itens na lojinha etc. O mundo é semiaberto limitando o jogador a certas áreas que fazem parte do arco atual da história.

Além de entrar nas dungeons principais para seguir a história, após completá-las existe a opção de retornar para realizar algumas side quests visando ganhar mais itens. Essas missões são curtas, mas desinteressantes, necessária apenas caso o jogador esteja com problemas para avançar na campanha, sendo assim, um bom lugar para treino e obtenção de novos equipamentos.

As missões principais apresentam temas muito relevantes e frequentemente debatidos na sociedade. Danos psicológicos devido a traumas, chantagens, exploração, porém, a proposta em Strikers é contar mais rápido as histórias tentando focar no combate, mas essa sintonia não foi muito bem refinada.

Há um excesso descabido nas repetições dos Personas se comparados ao jogo base Persona 5. Até mesmo, a ordem em que os Personas aparecem é a mesma podendo decepcionar quem passou mais de 100 horas jogando os predecessores deste. Isso não tira o brilhantismo do sistema especialmente para quem é novato na franquia.

A campanha do game dura em média umas 30 horas, podendo chegar a 55 caso queira fazer todas as quests do game.

Entre surpresas e frustrações

Apesar da história excelente e bem construída que norteia Persona 5, neste capítulo mais para a ação, a sensação é de que os diálogos não tiveram o mesmo tratamento e capricho, como em Persona 5 Royal. O dinamismo nas dungeons é tão irresistível que ao invés de causar curiosidade por saber qual será o plot twist ou o destino daqueles arcos, a única vontade que sentia era de voltar rapidamente para as “prisões” e encarar novos desafios.

Apesar do carisma dos personagens, um elemento fundamental nos jogos anteriores não está presente por aqui: as aulas. Por uma explicação plausível é verdade, recesso escolar, porém, não somente pelo conteúdo e textos ricos de conhecimento. Mas sim, porque é nesse momento pós-aula e no colégio em que os personagens brilham mais tendo o compromisso escolar e suas ações como Phantom Thiefs em paralelo, causando assim acontecimentos interessantes.

Para quem nunca jogou, obviamente não sentirá isso e deve ter uma ótima experiência misturando diversos elementos em sua gameplay sem cair no marasmo.

Nota
Geral
8.5