Metal Slug: Super Vehicle 001 surgiu em um momento inesperado dentro da história dos videogames. Na metade dos aos 90, o mercado já tinha mudado bastante, a ponto dos desenvolvedores começarem a mudar o foco de seus jogos para os polígonos e adicionar “profundidade aos gráficos”, os famosos 3D.

Acontece que, para nossa sorte, alguns estúdios acreditaram que aquele momento seria, exatamente, o ideal para criar os títulos em duas dimensões com a melhor qualidade já vistos, neste contexto surgiu Metal Slug.

Tela título de Metal Slug.

Metal Slug: Super Vehicle 001 é um jogo do gênero Run ‘N Gun, lançado, originalmente, no ano de 1996 para Arcade (MVS System), sendo desenvolvido pela Nazca Corporation e publicado pela SNK.

Com o passar dos anos foi portado para inúmeras plataformas, incluindo versões para todos os consoles da Sony lançados no mercado até o momento. Aqui iremos abordar a versão de PlayStation 1, mas suas principais características podem ser consideradas para outras também.

Ver esta imagem nos arcades, em meio a tantos jogos de luta e corrida, chamava nossa atenção.

Curiosidade 1: É verdade que a SNK foi a empresa que mais resistiu ao mundo 3D e graças a isso nos proporcionou os jogos com as melhores “pixel arts” da história dos games, com desenhos fantásticos feitos à mão.

Acontece que poucos lembram que ela se aventurou nos polígonos com pouco sucesso por meio da placa Hyper Neo Geo 64, entre os anos de 1997 e 1999. Esta teve apenas 7 jogos lançados, sendo os mais famosos: Samurai Shodown 64 e Fatal Fury: Wild Ambition.

Bastidores

Para dissertarmos sobre o nascimento da franquia Metal Slug primeiro temos que voltar aos anos 80, mais exatamente aos tempos em que a softwarehouse Irem colecionava sucessos nos arcades e com seus portes domésticos, como os títulos: Moon Patrol, Kung-fu Master e R-Type. Infelizmente os anos 90 não foram tão felizes para o estúdio e muitos dos seus fãs lamentaram sua quebra no ano de 1994.

Dentre seus funcionários, uma equipe destacava-se pelo estilo artístico rebuscado e alta qualidade de seus jogos, como Gunforce, Undercover Cops e In the Hunt (hoje vistos como antecessores espirituais de Metal Slug), apesar de terem um reconhecimento do mercado abaixo do merecido. Quando da falência da Irem, este time resolveu unir-se na “empreitada” de formar seu próprio estúdio, assim nasceu a Nazca Corporation (nome inspirado nas misteriosas linhas de Nazca presentes no Peru).

Gunforce – Conseguem ver as semelhanças?

Com o nome escolhido e a equipe pronta para trabalhar, faltava aquele que iria financiar os custos dos jogos, aí veio a parceria com a SNK, empresa, esta, famosa por jogos de arcade e grande apreço pela arte dos pixels.

Quando, certa vez, o produtor de Metal Slug, Kazumo Koji, foi questionado a respeito do motivo pelo qual se uniram com a SNK em um momento em que jogos em polígonos estavam em ascensão, ele respondeu: “Na Irem, fazíamos jogos para arcades (…) decidimos então por produzir para esta plataforma (MVS), porque, simplesmente, era o que fazíamos de melhor”.

Undercover Corps – Semelhanças aqui mais difíceis de serem observadas.

Inicialmente os planos foram colocados em reunião e a conclusão foi que o jogo seria um run ‘n gun que satirizasse uma guerra, de forma que, diferentemente do que costumávamos ver, seria ao mesmo tempo violento e engraçado, assim como controlaríamos um tanque em 100% da campanha.

Pois é, o Metal Slug não seria um veículo (acessório) encontrado durante as fases, mas realmente o personagem a ser jogável, aos moldes do submarino de In the Hunt. Como sabemos, alterações foram feitas antes do lançamento, ainda bem.

In the Hunt – Devido a sua semelhança gráfica com Metal Slug alguns “pirateiros” tiveram a falta de vergonha de vendê-lo com o nome Metal Slug Submarine. Oportunismo pouco é bobagem.

Curiosidade 2: Neste ano de 2020 tivemos a informação de que um remake da franquia está para ser lançado, infelizmente apenas para dispositivos móveis, pelo menos até o momento. De nome Metal Slug CODE: J, o título na verdade abordará momentos referentes a vários jogos dá série clássica, porém, aparentemente, dando um destaque maior para seu primeiro título.

Desta vez sairá o consagrado “pixel art” e entrarão gráficos mais modernos, assim como armamentos novos e barra de energia. Feito pela SNK, em parceria com a Timi Studios, é um feito a ser comemorado, visto que o último game da franquia, Metal Slug 7, foi lançado em 2008. Abaixo segue seu trailer.

Enredo

Apesar de Metal Slug ser um jogo de muita ação e pouco vinculado ao enredo, podemos dizer que há uma trama a ser descrita. Aos que não jogaram o título, fiquem tranquilos, nada que será dito aqui irá interferir na experiência de jogo.

Contra inimigos entrincheirados, a melhor opção, é gastar bombas.

O grande inimigo da franquia é o General Morden, que, sonha em dominar o mundo, assim como todo vilão que mereça atenção. Para isto conseguiu formar um poderoso exército capaz de deixar até as maiores nações do mundo sob seus pés. Segundo consta, parte de seu êxito se deu devido a uma aliança feita com seres de outros mundos (suas sequências que o digam). Após alguns eventos, uma ditadura global é instaurada e Morden é seu maior símbolo.

General Morden em uma imagem menos caricata.

Um grupo de rebeldes une-se com o objetivo de derrubar o general perverso e para derrotá-lo criam um novo tipo de armamento, forte e discreto, que seria capaz de invadir as bases de Morden e acabar com sua tirania, trata-se do tanque Metal Slug, conhecido como 001.

Infelizmente a fortaleza em que os Slugs estavam sendo produzidas acaba sendo descoberta pelo general e é atacada, fazendo com que poucos modelos possam ser utilizados pelos rebeldes.

O tanque Metal Slug merece ser o símbolo da franquia, já que ajuda muito em vários momentos da franquia.

Para pilotar os poucos modelos restantes dos tanques e restaurar a paz, dois heróis se apresentam, ambos do Esquadrão de Forças Especiais chamado Falcão Peregrino (PF Squad). Seus nomes são Marco (Marchrius Dennis Rossi), um nerd hacker com desejos de justiça e Tarma (Tarmicle Rovi III), um habilidoso soldado que adora motocicletas.

Nesta apresentação de personagens, não podemos esquecer Allen O’Neil, um soldado ao serviço de Morden (forte pra caramba) e que aparece constantemente no decorrer da franquia, hábil com a metralhadora, apesar de estar do lado dos vilões, sonha que a guerra acabe de uma vez para poder voltar para junto de sua família que aguarda seu retorno.

Curiosidade 3: Hoje quase ninguém lembra, mas Metal Slug tentou, no ano de 2006, entrar no universo 3D através de um reboot da franquia. O título saiu para o PlayStation 2 como uma forma de comemoração aos 10 anos do jogo original.  Infelizmente o game foi considerado fraco pelos fãs e pela crítica, sendo tido, por muitos, como genérico e pouco inspirado, apenas com uma trilha sonora merecedora de alguns elogios.

Análise Técnica

Os gráficos de Metal Slug são simplesmente incríveis, com um nível de detalhes enorme, para um jogo 2D desenhado à mão, até os dias de hoje. A quantidade de animações presentes em todos veículos e personagens merecem muitos elogios, assim como efeitos de zoom impressionantes, com inimigos vindo em direção à nossa tela. Simplesmente conhecê-lo nos arcades, em seu tempo, foi estonteante.

Cada detalhe merece sua atenção.

Há slowdowns durante o jogo, mesmo em sua versão original, visto que o Neo Geo realmente teve que mostrar seus “megashocks” de potência neste jogo. O interessante é que “eles” nos ajudam, principalmente, nos momentos finais do jogo, quando o caos de projéteis na tela, símbolo da franquia, surge e todos movimentos devem ser calculados com calma.

É muito tiro, mas o slowdown ajuda.

Podemos dizer que a dificuldade de Metal Slug é baixa, principalmente quando comparado com suas sequências e outros jogos do mesmo gênero. Assim sendo, basta um pouco de prática para chegar ao seu interessante final. Claro que se tentar terminar com um único crédito, as coisas serão diferentes. Quanto ao tempo de gameplay, o jogo é curto, assim como os títulos de arcade costumavam ser, bastando uns 30 minutos até sua conclusão.

Enfrentar o primeiro chefe com o tanque nos motiva a continuar a aventura.

Seu gameplay é o típico run ‘n gun em que devemos correr, pular, engatinhar e atirar buscando desviar do maior número de projéteis possíveis, com o risco de um número infinito de inimigos surgirem na tela caso fiquemos parados esperando.

Nosso personagem morre com um único hit, o que exige precisão nos comandos por parte dos jogadores. Vale destacar que os power-ups nos são fornecidos constantemente, principalmente dos famosos prisioneiros de guerra, isso faz com que a jogabilidade fique em constante alteração, aumentando, significativamente, a diversão.

O prisioneiros eram o típico Kinder Ovo, sempre nos davam um presente misterioso após serem resgatados.

A jogabilidade do título é muito boa e fluida, respondendo bem aos comandos dos jogadores, sendo difícil dizer que um erro seu foi culpa da falta de precisão, principalmente nos momentos plataforma presentes na aventura.

O curioso é que isso foi o que os desenvolvedores tiveram maior dificuldade durante seu desenvolvimento, principalmente após os primeiros testes em que os jogadores não haviam aprovado a presença, apenas do tanque, como personagem jogável.

Aparentemente um tanque de boss seria pouco.

A diversão em Metal Slug é enorme. Tratando-se de uma experiência intensa, de baixa duração e produzida com grande primor técnico, dificilmente o jogador ficará insatisfeito com sua experiência. Isto é tão evidente que, nos dias de hoje, é comum encontrarmos jogadores que após terminarem o primeiro título acabaram “maratonando” toda a franquia.

O primeiro encontro com o soldado Oneil.

O fator replay de Metal Slug é baixo, visto que temos um jogo bastante linear, sem a possibilidade de múltiplos caminhos, assim como a ausência de personagens selecionáveis com diferenças significantes a serem exploradas.

Ainda assim, a experiência de jogo é tão agradável que provavelmente os jogadores vão querer repetir a “dose” em partidas futuras, ainda mais junto de amigos com o multiplayer cooperativo.

Poder jogar com os amigos, sem dúvidas, ajuda na longevidade do game.

A trilha sonora de Metal Slug é incrível e seu resultado se deu pelo talento de Takushi Hiyamuta, que utilizou influencias orquestrais e elementos de jazz, fazendo todas faixas únicas e relembradas na franquia.

Os efeitos sonoros, do mesmo autor, merecem, talvez, maior reconhecimento, quem não lembra dos gritos dos inimigos ou então os power ups “heavy machinegun” e “shotgun”. Simplesmente clássicos da indústria dos games. Abaixo segue sua trilha completa.

Curiosidade 4: Nos tempos de seu lançamento, o sucesso de Metal Slug fez o título chegar em diversas plataformas presentes no mercado. Nos consoles rivais, Saturn e PlayStation 1, a situação ficou assim: A carência de memória RAM presente nas plataformas fez com que a versão da SEGA apresentasse um bom desempenho graças ao cartucho de expansão de 1MB.

Infelizmente com o console da Sony este problema não pode ser contornado e o título sofre de alguns problemas, como nas animações, efeitos sonoros e, principalmente, uma pausa para “carregamento” que ocorre durantes as fases.

Consciente dos problemas, esta versão possui um modo extra para compensar. Trata-se do “Another Story” em que temos disponíveis alguns desafios. Vale destacar que, assim como a versão de Saturn, esta possui o modo “Combat School” em que devemos superar as missões dentro de determinadas limitações.

Fases

Metal Slug 1 é um jogo que apresenta 6 fases em sua campanha principal, um bom número, já que a dificuldade deste tipo de games para arcades costumavam limpar a carteira dos jogadores. Todas são bem feitas e memoráveis para os fãs da franquia.

Aqui irei abordar suas três primeiras para, assim, evitar maiores spoilers para aqueles que ainda não jogaram este grande clássico.

Um dos cenários mais icônicos da franquia.

– MISSION 1: Aqui temos uma perfeita apresentação do que iremos ver durante o jogo. Os inimigos, apesar de demonstrarem diferentes padrões de comportamento, são fáceis de ser abatidos por aqueles que possuem alguma experiência no gênero.

Um helicóptero se apresenta como subchefe e já temos acesso ao tanque Metal Slug, símbolo da franquia. Para completar, a trilha sonora é magnífica e nos incentiva a continuar nossa jornada.

É tanta explosão que nem parece ser a primeira fase.

– MISSION 2: O ambiente agora é noturno e começam a surgir obstáculos que nos fazem ter precaução. Nossas possibilidades de armamentos se expandem, assim como a diversidade de inimigos, como paraquedistas, barcos e tanques de guerra. O chefe, como de costume, impressiona.

Paraquedistas e obstáculos elétricos mostram que o caos total está perto.

– MISSION 3: Aqui o jogo dá um salto significativo em sua dificuldade e provavelmente foi o fim da ficha de muitos principiantes em Metal Slug. Passamos a fase escalando uma montanha congelada com cuidado em acompanhar o “scrolling” vertical, já que morremos se cairmos em uma região que não “aparece mais na tela”.

Além de cenários devastados pela guerra e a presença do gênero plataforma, nesta etapa nos encontramos pela primeira vez com o icônico vilão, Allen O’Neil, como subchefe que, além de difícil, aparecerá constantemente em aventuras futuras.

Fase vertical mostra os elementos plataforma do jogo.

Curiosidade 5: Em 1998 os fãs da série puderam comemorar seu retorno de modo magistral. Metal Slug 2 acrescentou praticamente tudo na franquia: tamanho, diversidade de inimigos e veículos. Infelizmente, isto teve um custo e sua versão original sofre gravemente de slowdowns.

Este fato fez com que no ano seguinte, 1999, Metal Slug X (uma versão revisada do 2 com muitas diferenças), chegasse ao mercado como sua obra definitiva, sendo considerado, por muitos, como o melhor título da franquia. Quem sabe “X” ainda receba um artigo só para ele futuramente aqui na Gamer Point.

Obs: Em relançamentos futuros Metal Slug 2 teve seus problemas corrigidos e hoje recomendamos que ambas versões sejam jogadas.

Conclusão

Metal Slug surgiu em um momento em que poderia dar muito errado, já que os consumidores buscavam, em sua grande maioria, por produtos bastante diferentes dos que seus desenvolvedores estavam dispostos a produzir.

Ainda assim, a qualidade de um trabalho muito bem feito recebeu o reconhecimento merecido e fez com que a franquia continue viva até os dias de hoje. Ao menos em minha opinião, a Nazca conseguiu criar uma série que virasse sinônimo de seu gênero, sendo a fórmula contemporânea que conseguiu deixar grandes nomes, como Contra, Sunset Riders e Gunstar Heroes, como sucessos do passado.

Jogado no PlayStation 1