Quando um jogo fica sem notícias por mais de cinco anos, geralmente é considerado morto. No entanto, no ano passado, a Deep Silver lembrou a todos que a sequência do seu famoso RPG de zumbis ainda estava em desenvolvimento e até divulgou uma data de lançamento. Então, tal qual um verdadeiro zumbi, Dead Island 2 voltou dos mortos e agora chega direto nas prateleiras digitais e físicas.

Depois de uma produção longa e tumultuada, que incluiu a mudança da equipe de desenvolvimento, Dead Island 2 está finalmente pronto e tem como missão, fazer com que matar zumbis se torne divertido novamente. A pergunta que fica é: a espera valeu a pena ou aqui estamos diante de mais um jogo que demorou anos para ser lançado e só será lembrado pela sua persistência?

Você já pensou em ser uma babá de celebridade?

Dead Island 2 e seu humor negro são algo que caminham juntos. Essa linguagem já estava presente em 2011, quando a franquia estreou. Mas Dead Island 2 entrega uma acidez cheia de crítica social por trás de sua narrativa e que me deixa a todo momento com um riso no rosto. Por que ver gente rica sendo tratada como burros é tão divertido?

Estamos praticamente diante de uma paródia apocalíptica passada em Los Angeles (aqui conhecida como Hell-A) tentando sobreviver e nos adiantar a toda essa pandemia catastrófica que nos cerca. Não é novidade para ninguém que em 99% dos casos estaremos lutando contra zumbis e o outro 1% terá uma narrativa satírica no jogo.

A ideia original, anunciada em 2014, esboçou uma coleção de cenários em toda a Califórnia. O estúdio britânico Dambuster Studios mudou completamente a ideia original, colocando-nos na cidade de Los Angeles, encarnando um dos seis personagens disponíveis.

Após assumir a pele de um dos personagens, você começa sua jornada em Dead Island 2, que se passa 10 anos após os eventos ocorridos no primeiro título, onde o governo dos EUA decide colocar toda a Califórnia em quarentena devido ao surto do vírus. O jogo começa com a cidade de Los Angeles caindo em caos, e as pessoas tentando fugir para o aeroporto. O avião em que você se encontra de repente se depara com passageiros infectados, causando pandemônio no ar. Após um pouso forçado, você passa por destroços e chamas para encontrar sobreviventes, e encontrando também os primeiros zumbis do jogo pelo caminho.

A partir do momento em que você encontra os primeiros sobreviventes e luta contra zumbis, você começa a entender qual a grande missão do jogo. Um dos zumbis morde o seu personagem, mas nada acontece. Ou seja, você já deve imaginar que é mais um jogo de zumbi onde uma pessoa é a cura e precisa seguir uma jornada até chegar no local em que você pode ser usada para testes, mas com a incógnita na cabeça se você será morta para isso, ou não. Em qualquer outro jogo, eu já iria reclamar bastante do clichê em torno da história do jogo. Mas Dead Island 2 tem uma licença poética ao satirizar de forma muito boa, a vida das celebridades e pessoas ricas vivenciando situações em que elas não tem mais uma indústria por trás mimando cada um para fazer todas suas tarefas.

Ao conhecer um grupo de sobreviventes, você entende que eles são atores famosos de Hollywood, e que assim como você, também querem fugir dali. O problema é que eles são completamente medrosos e não conseguem fazer nenhuma ação, ou atividade doméstica que seja, sozinhos. O jogo satiriza a todo momento a forma com que as celebridades tratam você, um cidadão comum, como se estivesse na obrigação de fazer favor para eles, pelo simples fato de eles serem celebridades. Mesmo você tendo ciência que não existe mais nem sequer uma indústria, pois o mundo está acabando. Mas ainda assim, as celebridades continuam se comportando como se nada tivesse acontecido.

A “amizade” que você constrói ao longo da aventura desencadeia em momentos que beiram o ridículo digno de uma paródia de filmes de terror. Mas o fato de que aquilo tudo realmente pode ser levado a sério, deixa a coisa ainda mais escalafobética. Todos estereótipos estão presentes, e toda celebridade com nome fictício que você encontra, é passível de assimilar com um ator ou atriz existente. Desde a atriz jovem do momento extremamente mimada, ao ator veterano em decadência rabugento e que passa o dia bêbado.

Como você já deve esperar, a história em Dead Island 2 não é o ponto forte do jogo. Mas o esforço que fizeram para deixar essa pequena narrativa não atrapalhar o ritmo do jogo, já é louvável. Inclusive, um dos pontos negativos do jogo é exatamente nos momentos de diálogos. Aqui nos deparamos com os NPC’s estáticos e apenas com o lábio se movendo de forma nada parecida com o que se é falado. Mas ainda assim, é sempre divertido acompanhar todos os diálogos pois sempre é possível ver uma linha cômica entre eles.

No geral, o jogo é uma experiência de horror de sobrevivência em que o jogador precisa navegar por um mundo dominado por zumbis e tomar decisões difíceis para sobreviver. A narrativa do jogo é intensa e cheia de ação, com o jogador encontrando vários personagens com suas próprias agendas e motivações.

Por menos priorizado que seja, todo o plot por trás de Dead Island 2 explora temas de moralidade, ética e instintos de sobrevivência em um mundo onde a humanidade está à beira da extinção. Uma discussão que pode se alastrar mesmo após você parar de jogá-lo. É sempre discussão presente na sociedade atual.

Um monte de gêneros em um liquidificador dá um suco bom?

Partindo para o que o desenvolvimento do jogo priorizou, Dead Island 2 oferece um vasto mundo aberto onde você pode explorar uma versão distópica da Califórnia, das praias de Santa Monica às ruas de Los Angeles, e usar uma variedade de armas improvisadas para lutar contra zumbis, desde bastões de beisebol, até pistolas e rifles de assalto. Além disso, permite que você atualize suas habilidades e estatísticas à medida que avança no jogo, permitindo que você enfrente inimigos mais poderosos. Ou seja, assim como seu antecessor, o jogo conta com áreas de mundo aberto e uma árvore de habilidades, fazendo com que ele entregue de fato um RPG em primeira pessoa como conhecemos.

Seu mundo, apesar de aparentar ser realmente aberto por não conter paredes invisíveis, ele ainda assim o faz. Seja por meio de portas que você não pode abrir, ou estruturas que não são escaláveis. Posso tentar rotuá-lo como semi mundo-aberto, já que ele conta com todas essas áreas que você terá de viajar para acessá-las, e cada uma conta com uma variedade de missões e imóveis que você pode entrar para pilhar e conseguir alguns recursos.

Dead Island 2 também possui multiplayer online, onde você pode se juntar a outros amigos para lutar contra zumbis ou competir entre si em uma variedade de modos de jogo. O jogo também apresenta jogabilidade cooperativa onde vocês podem trabalhar juntos para completar missões e sobreviver neste mundo perigoso. Infelizmente em meu período de testes que antecedem o lançamento do jogo, não consegui por motivos óbvios, testar o modo cooperativo do jogo. Mas ao longo da minha experiência com o jogo, eu ficava martelando na minha cabeça o mesmo pensamento: “jogar isso aqui com o coleguinha deve ser ainda mais gostoso, hein?”.

Cada um dos personagens que você optar escolher no início do jogo conta com habilidades e especialidades diferentes e essa escolha pode ser determinante para você montar sua build com base na principal novidade que Dead Island 2 traz em relação ao seu antecessor, que são as cartas de habilidade, que, como o nome indica, são cartas que iremos encontrando e desbloqueando dando-nos diferentes efeitos passivos, dependendo tanto do ambiente e dos movimentos que fazemos, quanto do personagem, permitindo o jogador customizar sua forma de combate mesmo tendo o mesmo personagem dos outros jogadores.

Esses efeitos são vários e diferem de personagem para personagem, o que significa que, por exemplo, se escolhermos Amy, que é uma corredora profissional, recebemos bônus por esquiva, habilidades como correr e pular para desferir um golpe com uma arma longa como uma vara. Ou se escolhermos Ryan que é um bombeiro, teremos um bônus de dano se bloquearmos perfeitamente um inimigo ou até mesmo curá-lo quando você matar um zumbi. Existe uma enorme variedade de combos com as cartas, o que leva a repetir os níveis para tentar diferentes combinações ou se um chefe está muito difícil pra você, o jogo permite que você possa mudar rapidamente de estratégia.

Um combate surpreendente

Dead Island 2 nos entrega um combate contra zumbis que me fez ficar com uma dúvida em minha cabeça que é: eu prefiro um combate mais “bumba meu boi”, acelerado e ritmado de um Dying Light, ou essa coisa nova aqui que até então eu não tinha experimentado em um jogo de zumbi?

O fato é que Dead Island 2 tem um sistema de combate extremamente polido, que parece quase um combate baseado em turnos. Os golpes são um pouco difíceis quando se trata de combate e isso ocorre porque eles são mais bem definidos pela qualidade do golpe do que pela ação em si. É uma jogabilidade empolgante e desafiadora, principalmente porque muda a concepção de como estamos acostumados a realizar o combate, substituindo a ação rápida por movimentos calculados sem prejudicar o jogo em si, muito pelo contrário.

A grande novidade do combate no jogo é a forma como os corpos se degradam com os golpes. Um novo sistema de decomposição (Procedural Dismemberment) é uma novidade que parece incrível. É possível atingir partes específicas do corpo e ver como se decompõe com os golpes até chegar ao esqueleto. Talvez este não seja um jogo adequado para pessoas que não gostam de gore, mas se o que você quer é realismo de um desmembramento zumbi, o combate não irá decepcioná-lo nem um pouco.

Mas aqui vem a faca de dois gumes: se o que você estava esperando é um jogo de ação rápida, como Dying Light, este não será o jogo para você, pois os combates parecem mais combates por turnos do que ação rápida. Cada golpe causa um dano específico dependendo de onde é acertado, a ação tende a ser mais lenta do que qualquer outro jogo semelhante e parece mais calculada do que qualquer outra coisa.

As armas têm uma barra de duração e quanto mais as usarmos, mais rápido elas diminuirão de qualidade, se usarmos muito a arma quebrará, mas continuará equipada em nossa roda de armas. O fato de uma arma ter sido “quebrada” não significa que ela seja inútil, se a equiparmos a veremos quebrada, e fará o mesmo dano que ir com o punho, o ideal é sempre consertar ou combinar antes de sair e se definitivamente ela não foi mais útil, o que mais recomendo é reciclá-la. Vale ressaltar que as armas têm cores diferentes, que consequentemente diferenciam sua raridade e capacidade de combate.

É possível fazer uma combinação de armas para cada situação. Aprimore suas armas com habilidades de elementos que podem ser determinantes, como arma com dano de fogo, elétrico, que aplica sangramento, que facilita o desmembramento, entre várias outras combinações diferentes.  Em outras palavras, o combate de Dead Island 2 é para aqueles que gostam de manipular ao bel-prazer, o ambiente em volta. E isso melhora ainda mais com o fato de que o jogo trabalha de forma magistral com os elementos presentes a todo momento em seu mundo.

Algumas áreas vão ter diferentes mecânicas ambientais que o jogador pode usar a seu favor ou que se estiverem muito distraídos podem custar-lhes a vida, então já que é um apocalipse zumbi é preciso estar sempre alerta. Vamos encontrar os carros clássicos que quando recebem um golpe soam o alarme e atraem inimigos, mas também encontraremos hidrantes de água aberta com cabos eletrificados, algumas residências, até piscinas com produtos químicos para decompor corpos, que podemos usar para decompor os zumbis inimigos. Dead Island 2 te dá as ferramentas e você pode manipular o ambiente como você bem pretender. Em uma passagem do jogo onde eu estava dentro de um esgoto, usei minhas armas de eletricidade para matar dezenas de zumbis instantaneamente usando a corrente elétrica da água. Mas eu também poderia deixar aquela água tóxica e tacar fogo, ou simplesmente sair matando um por um. Essa liberdade de combate que Dead Island 2 proporciona é o que mais consegue prender o jogador.

Visuais que acrescentam na imersão

Dambuster foi o terceiro estúdio a assumir esta produção em 2018, recomeçando do zero o progresso que os estúdios anteriores haviam feito. Honestamente, creio até que esta foi a melhor decisão, pois para um jogo que começou a ser desenvolvido em 2014, continuar com a estrutura daquele ano só teria gerado resultados que pareceriam antigos e fora do padrão dos jogos atuais. E por falar nisso, Dead Island 2 é um jogo com um visual de cair o queixo morto de qualquer zumbi.

Em termos de gráficos, Dead Island 2 tira o máximo proveito do Unreal Engine 4, entregando uma física que aumenta ainda mais a imersão visual, pois você realmente sente que está cortando a carne e os ossos do inimigo. Se cortarmos na altura da barriga, não só as entranhas serão vistas, como elas também cairão e se espalharão penduradas, se os inimigos passarem perto de uma nuvem de ácido, vamos ver como eles derretem até ficarem quase no osso.

Além disso, aproveitando o fato de que a cidade de Los Angeles tem uma população variada, cada jogo será diferente, tendo inimigos gerados aleatoriamente. Isso significa que, embora eu possa encontrar zumbis trabalhadores e alguns palhaços ou atores nos estúdios de televisão, outro jogador em um jogo diferente terá zumbis diferentes, exceto o chefe de cada zona.

Vale a pena?

Dead Island 2 é um jogo especificamente comprometido com seu objetivo, que é entreter. A mecânica de jogo tem a identidade de todos os jogos de Dead Island e estou satisfeito em ver como ele foi renovado tanto visualmente quanto internamente no gerenciamento de habilidades. Matar zumbis agora é mais divertido que nunca, ainda mais quando esse nível de detalhe que Dead Island 2 proporciona está presente. É divertido mesmo apenas explorando, sem seguir a história, já que muitas vezes me peguei apenas matando zumbis e andando pelos cenários lindos da Califórnia apocalíptica.

A parte técnica do jogo é incrível, e melhora muito não só a franquia, mas o próprio gênero de jogos de zumbi. Os detalhes realistas na hora de lutar contra os inimigos dão aquele toque que falta em muitos jogos desse estilo, as paisagens são bem detalhadas, tudo que você precisa para se sentir imerso em um verdadeiro apocalipse. Ser capaz de assistir a carne de um zumbi derreter em uma nuvem tóxica, ou mais ainda, atacá-lo criando estratégias com base em ir direto para a cabeça ou desmembrar um zumbi especial primeiro, tudo isso contribui para a imersão.

Em relação a dificuldade e curva de evolução do jogo, senti-me bastante bem, como uma curva ascendente, em que se aplicarmos tudo o que aprendemos somado ao que vamos conseguindo durante o jogo, não se torna impossível, mas a curva de evolução ainda nos consegue deixar perceber que está ficando cada vez mais difícil.

A música e o som são mais do que marcantes, os sons do ambiente fazem você se sentir em um apocalipse, desde grunhidos e murmurinhos de zumbis, até pessoas conversando, gritando, geradores sobrecarregados, etc. Tudo isso somado a música de fundo que aumenta de volume e intensidade, fazendo uma harmonia perfeita para saber que sempre há perigo por perto.

Tive a oportunidade de jogar Dead Island 2 no Xbox Series S e fiquei extremamente surpreso com o fato do jogo estar não só muito bonito visualmente, como também, ele roda a 60 quadros por segundo durante todo o jogo. Ao longo da minha experiência com ele, não notei em momento algum uma queda de desempenho. Dead Island 2 irá rodar a 60 fps na atual geração de consoles e a 30 fps na geração anterior.

Após me divertir bastante com Dead Island 2, posso dizer que para os fãs desse estilo de jogo, e principalmente os de Dead Island, é um jogo mais que obrigatório, divertido, envolvente e bem completo. E para quem quer começar nesse mundo com esse jogo pode ser difícil de se acostumar no começo com as mecânicas, mas é uma experiência e tanto após você se sentir confortável.

É uma pena que o trabalho de captura facial nos momentos de diálogos e algumas missões sem muita profundidade, faça com que o jogo tire um pouco a imersão em alguns momentos e possa fazer com que algumas pessoas percam o ritmo do jogo. Mas apesar de algumas ponderações, Dead Island 2 é um dos bons jogos que pude testar em 2023.

Nota
Geral
8.0
dead-island-2Dead Island 2 é um jogo de zumbi muito divertido e envolvente, que oferece uma experiência completa e imersiva. Com gráficos impressionantes e detalhes realistas na jogabilidade, matar zumbis nunca foi tão divertido.