Desde a origem dos jogos eletrônicos, desenvolvedores procuram somar educação e diversão em um único game, de forma que o jogador seja capaz de aprender involuntariamente, adquirindo cultura enquanto cumpri as missões dadas. Beyond Blue não apenas nos dá uma incrível aula sobre biologia marinha, como também nos faz pensar sobre a importância de preservar o meio-ambiente, tudo isso enquanto nos coloca em uma leve atmosfera de exploração.

A beleza artística mostra um capricho que vai além de simplesmente educar.

Beyond Blue é um jogo do gênero simulação/exploração, desenvolvido e publicado pela E-Line Media e lançado para PlayStation 4, Xbox One e PC no dia 11 de junho de 2020.

Abaixo segue o trailer de Beyond Blue. Obs: Não esqueça de ativar as legendas em português.

Curiosidade 1: Ao ver Beyond Blue, pela primeira vez, é impossível não fazer um paralelo com o recente jogo do estúdio Giant Squid, Abzû, sendo este conhecido por ser um sucessor espiritual de Journey. Acontece que a semelhança está praticamente na temática subaquática, de forma que o sentimento de “jornada” presente em Abzû não se encontra em Beyond Blue.

Abaixo seguem imagens de Abzû.

Bastidores

Beyond Blue (inspirado no programa Blue Planet II da BBC) nos mostra como é a vida dos aquanautas, pessoas que trabalham abaixo no nível da água tempo o suficiente para adaptarem-se a ficar por longos períodos em um ambiente de alta pressão. Vale destacar que não são submarinistas, visto que estes utilizam veículos subaquáticos. Neste jogo vemos a importância desta profissão e quanto deste mundo ainda é desconhecido.

O jogo dá um destaque maior às baleias.

Obs: Quando anunciado publicamente, Beyond Blue chamou atenção do público pelo fato de ser dos mesmos criadores do título, sucesso de crítica, Never Alone. Este jogo, assim como Beyond, teve o objetivo de divulgar a cultura do povo Iñupiaq, nativos que moram no Alasca há milhares de anos, demonstrando um respeito e preocupação com seu estilo educativo. Abaixo seguem imagens do jogo Never Alone (quem sabe, um dia, ainda receba um artigo aqui).

O domínio do que temos nos oceanos ainda é muito pequeno, para se ter uma ideia, apenas oitos pessoas chegaram até os pontos mais profundos dos mares, imaginem então saber tudo o que existe por lá. Beyond Blue nasceu da contribuição simultânea entre desenvolvedores de games e cientistas que buscavam, através desta mídia, não apenas educar, mas também fazer os jogadores terem empatia pelos seres vivos e assim colaborar para a sua preservação.

Percebemos comportamentos inesperados de alguns animais durante os mergulhos.

Curiosidade 2: Os cientistas que ajudaram na criação de Beyond Blue possuem currículos invejáveis para todo aquele da área da oceanografia. Vamos a eles: 1) Dr. David Gluber – Mestre em Gerenciamento Ambiental Costeiro e Phd em Oceanografia Biológica, descobridor da tartaruga fluorescente, sendo este o primeiro réptil biofluorescente já registrado; 2) Dra. Samatha Joye – É um dos maiores nomes na ecologia oceânica por diversas contribuições e foi consultora para a série Blue Planet II da BBC; 3) Dra. Sylvia Earle – Foi a primeira Cientista-chefe da Administração Oceânica e Atmosférica Nacional dos Estados Unidos. No ano de 1998 recebeu o prêmio de “Hero for the Planet” pela revista Time.

Análise Técnica

O gameplay em Beyond Blue é simples e por estes motivos pode se tornar pouco atraente para grande parte do público. Apesar de termos acesso a uma tecnologia avançada para explorar a vida marinha, nosso papel é muito mais de espectador do que de qualquer outra coisa. Realmente temos a sensação de estar estudando e observando a vida, com uma mínima possibilidade de interferência no meio. Durante a campanha entramos em comunicação com a equipe, o que aumenta a sensação de intimismo e de como é a vida daqueles que vivem com este tipo de profissão, infelizmente tudo aparentemente poderia sido melhor aproveitado.

Percebemos detalhes como tartarugas se alimentando de águas-vivas.

Durante os mergulhos temos as missões que são estudar, principalmente, as baleias cachalotes, localizando-as através de sonares, colocando rastreadores e percebendo a vida em sua volta. Após fazermos estes objetivos vamos para mergulhos em outras regiões. O interessante é que a aventura se passa em um provável futuro em que os mergulhadores possuem uma tecnologia maior para realizar suas descobertas, inclusive com os personagens se perguntando como seria diferente se eles algum dia tiverem o mesmo incentivo que os astronautas possuem. As respostas para muitas curas de doenças e formas de vida desconhecidas estão em nosso próprio planeta e seria mais inteligente estudar o que temos aqui ao invés de buscar algo no infinito. Esta é uma das mensagens fortes que o título questiona.

Completar o catálogo lembra a experiência de preencher um álbum de figurinhas interativos. Os mais velhos vão entender melhor do que estou falando.

Os gráficos do jogo são simples considerando o potencial presente nos consoles da atual geração, porém, não deixam a desejar, já que o título, ainda assim, consegue apresentar os animais com detalhes para o nosso reconhecimento. Ou seja, o game não necessita ter gráficos incríveis, uma vez que sua proposta não exige isto.

A dificuldade do jogo é inexistente, de forma que não há inimigos ou possíveis ações que nos levem a morte. Basta cumprirmos nossas missões indo até determinados pontos e executando as requeridas ações que logo desbloqueamos as próximas para que a campanha continue.

O submarino funciona como um hub que temos acesso entre os mergulhos principais.

O enredo do jogo é simples e remete ao mundo profissional de alguém que trabalha nesta área, abordando a protagonista Mirai em seu dia-a-dia de pesquisa. A narrativa junto a comunicação com a irmã e outras pessoas ajudam a conhecer melhor a personagem, porém não de forma profunda.

Há formas de vida escondidas entre os corais.

O tempo de gameplay do título é curto. Acredito que em 6 horas o jogador vai ter uma experiência proveitosa o suficiente para se considerar satisfeito com o jogo. Este tempo se dará caso explore com calma, assista os pequenos documentários e dê uma atenção aos arquivos ligados aos seres que vamos registrando durante a jornada. O fator replay é baixo, ocorrendo apenas caso o jogador queira adquirir todos os troféus possíveis e completar os dados referentes às pesquisas.

Alguns ambientes surpreende por serem inesperados.

A trilha sonora do jogo merece destaque (mesmo aproveitando o som ambiente em vários momentos), de forma que possui um grande número de artistas com músicas cantadas em sua biblioteca de qualidade. Quanto aos efeitos sonoros, tenho apenas elogios. Até porque reproduzir os “sons dos mares” é um dos principais objetivos dos criadores neste jogo.

Percebemos trajes um tanto futuristas na protagonista.

Os controles de Beyond Blue são bastante funcionais, até mesmo porque não há uma grande exigência de habilidades, uma vez que não há mortes ou punições para possíveis erros. Conseguimos controlar a protagonista muito bem e não há qualquer tipo de frustração quanto a isto.

Curiosidade 3: No dia que este artigo está sendo escrito, Beyond Blue está com a média de 74 pontos no site Metacritic, números interessantes visto a temática mais educativa que este título possui.

Conclusão

Com uma mensagem linda de preservação e uma jogabilidade acessível para jogadores de todas as idades, Beyond Blue acaba sendo um acerto, visto seu objetivo de fazer o jogador ter empatia pelos animais aquáticos e educar sobre estas exóticas formas de vida. Infelizmente a ausência de um desafio ou um melhor aproveitamento dos personagens presentes na aventura possam decepcionar alguns jogadores que buscam, também, uma jogabilidade mais profunda. Enfim, o título faz um excelente trabalho naquilo que propõe e, quem sabe, em uma possível sequência, possamos ver um equilíbrio que agrade um número maior de público. Ainda assim, fica a dica para todos darem uma chance, você pode gostar mais do que imagina.