Ultimamente uma leva de jogos com a temática vingança tem surgido, e muitos deles foram bem recebidos pelo público, Ghost of Tsushima e Sifu são exemplos de games que trouxeram esse tema em suas narrativas, Winter Ember segue o mesmo princípio, mas aqui é vingança por vingança, quando o sentimento deseja queimar tudo até o chão.

O início da jornada

O game começa com uma animação que é no mínimo aceitável, com pouco menos de quatro minutos, somos apresentados à família Artorias, com o jovem Arthur Artorias vivendo sua bela vida luxuosa, entre conflitos com seu pai e farras noturnas (as referências da lenda do rei Arthur não param apenas no personagem principal), na calada da noite um grupo de homens encapuzados invadem a mansão e matam todos que ali estavam, ou pelo menos é isso que eles acham ter feito.

Após ser salvo por uma estranha moça, Arthur parte em busca de respostas sobre as pessoas que devastaram seus entes queridos, na primeira noite de inverno terá início também nossa aventura. É necessário saber que esse jogo possui elementos de ação, rpg e stealth, sendo esse último o que mais irá predominar durante toda a campanha, a primeira parte do jogo é praticamente um imenso tutorial, ao mesmo tempo que fazemos as missões, vamos aprendendo as mecânicas de gameplay.

Normalmente jogos de ação possuem um combate mais frenético, para que quando nossa furtividade falhar, tenhamos alguma chance contra os inimigos, aqui o melee possui certa complicação, o personagem possui intervalos entre um golpe e outro que impendem um combo, é necessário combinar ataque e esquiva para que sejam efetivos os golpes de espada.

A técnica que deve ser dominada é o contra-ataque, com uma janela de resposta extremamente curta, ele pode significar a falha total ou sua escapatória nos momentos mais difíceis, qualquer inimigo interceptado ficará paralisado por tempo suficiente para ser derrotado. A furtividade é onde a alma do jogo vive, é o modo mais divertido de jogar (para quem gosta desse estilo) pois combina muito bem com toda a atmosfera do jogo, aqui reside parte da complexidade da obra.

Podemos usar a furtividade para eliminar os inimigos de duas formas, desmaiando e dando cabo com nossa lâmina, as duas possuem desvantagens, ao desmaiar um inimigo, você não chama a atenção dos demais com sinais de violência, mas depois de um tempo ele vai recobrar sua atenção e automaticamente entrar em estado de busca. Já com execuções pela lâmina, a poça de sangue deixada no chão fará com que os inimigos iniciem uma varredura pelo local, assim podemos formar nossas estratégias para prosseguir de maneira menos trabalhosa.

Para que a furtividade fique mais interessante, os elementos de cenário que dão certo charme, também auxiliam com essa mecânica, são inúmeras velas e lampiões que podem ser apagadas, reduzindo assim a visão dos inimigos, no minimapa do jogo, toda vez que o símbolo de olho aparecer, significa que nosso personagem pode será descoberto caso seja mirado por seus caçadores. Quando estamos na escuridão, sombras aparecem nos cantos da tela, ajuda bastante para nos localizarmos e assim imergirmos no mundo do game.

Arthur possui movimentos que eu prefiro chamar de calculados, e é necessário observar bem toda a rota dos adversários, e aqui faço a primeira crítica ao jogo, os comandos por inúmeras vezes não respondem bem, quando estamos perto o suficiente para que uma eliminação seja feita, os botões de tal ação aparecem no canto esquerdo da tela, e perdi as contas de quantas vezes eu dei a ordem e o personagem simplesmente cortou a ação e isso resultou na detecção e em algumas falhas de missão.

Em um jogo como esse é mais que inaceitável ter esse tipo de falha, gerando uma frustração desnecessária, não só pelo erro de programação, mas pelas vezes que isso se repete.

Entre os tropeços de Winter Ember, temos espaço para elogios, principalmente para sua direção de arte, a visão isométrica e a trilha sonora são os pontos mais fortes, os cenários iluminados, onde as sombras criam um contraste e uma identidade visual bem bonita, fazem com que seja palpável toda sua atmosfera, além de combinar bastante com toda temática sombria da trama principal.

A época e que o jogo se passa, remete aos tempos do pré-modernismo, as ruas e becos que exploramos escondem mistérios que se transformam em missões secundárias, aumentando assim nosso aproveitamento, as composições que acompanham a gameplay durante todo o tempo, são compostas por cantos líricos, obras inteiramente feitas no piano (uma delas me lembrou bastante as músicas de save room, no clássico Resident Evil), todas combinam bastante com cada situação, desde exploração até o combate.

Outra parte que achei bem trabalhada, é a composição de flechas, e é necessário ter ficar ciente de que o arco e flecha possui extrema importância em todo o jogo. Entre os tipos de flechas, temos as normais, fogo, água, elétrica etc. Para produzir cada uma, temos que fazer a ponta e o corpo da flecha, caso deseje integrar uma especialidade para ela, é necessário colocar os elementos em slots, mais na frente do jogo será possível combinar mais de um elemento, tornando a efetividade do disparo ainda melhor.

Os recursos para fabricação das munições são bastante escassos, e a possibilidade de adquiri-los em lojas é igualmente limitada, ou seja, devemos usar cada uma com sabedoria, acredite, não ter uma flecha quando necessitamos de uma, significa percorrer um caminho ainda mais longo até o objetivo.

Arthur possui uma personalidade forte, e é implacável com seus inimigos, depois dos acontecimentos iniciais, tornou-se um assassino, mas que ainda possui o mínimo de misericórdia para poupar seus alvos dos sofrimentos, é possível ajudar diversos npc’s em missões secundárias, geram boas recompensas, principalmente pontos de habilidade, que ajudam em nossa progressão.

Para recuperarmos e salvarmos o jogo, temos altares espalhados pelo mapa, eles servem também para que seja distribuído cada ponto obtido, e somente neles é que essa ação pode ser feita. Caso sua saúde esteja baixa, ao salvar o jogo nos altares, ela será recuperada por completo, mas somente em altares nunca antes visitados.

As habilidades ajudam muito nas missões, sejam as que incorporam mais dano em combate, ou as que permitem agir nas sombras ainda melhor.

Pequenos deslizes do jogo…

Existem coisas em Winter Ember que podem irritar até mesmo o mais paciente dos jogadores, um deles já citado, que são os comandos que não respondem bem, outro é quando o jogo não capta a ação feita pelo personagem, vamos ao exemplo: em determinado ponto, é necessário atirar uma flecha especifica para que uma corda caia, tornando possível chegar no objetivo, ao mirar no ponto ele irá brilhar, porém, mesmo com o ponto nitidamente em mira, flecha pousa sobre a superfície e nada acontece, e caso você não tenha mais recursos para gastar outra, será necessário reiniciar desde o último check point. E mais uma vez essa situação pode se repetir.

Outra coisa que atrapalha é a hitbox tem falhas risíveis, se você esquivar e claramente ficar longe do alcance do ataque, ele lhe acertará, e cada ataque sofrido aqui é uma dor de cabeça, já que o personagem sofre sangramento, e ainda fica com seu dano reduzido, sendo necessário usar uma bandagem para parar o efeito.

É completamente aceitável que um jogo indie possua alguns problemas, mas o que envolvem Winter Ember podem gerar aborrecimentos graves, até mesmo porque me parece que é um jogo que necessite de extremo polimento, para que suas mecânicas façam o básico, que é funcionar.

A vingança nunca é plena

Conforme a história vai desenrolando, vamos entendendo as motivações por trás do ataque a família Artorias, além disso encontramos surpresas do roteiro que deixam tudo ainda mais interessante, Arthur conhece diversos personagens que ajudam em sua jornada, sejam os principais ou os que cruzamos em missões extras, há algo de misterioso em cada canto, até mesmo nos puzzles e áreas mais sinistras, que reservam até mesmo sustos que vão pegar uma boa parte desprevenida.

O jogo possui uma boa narrativa, mas infelizmente peca em não ter nada em português, tudo está em inglês, e para um game com elementos um pouco complexo, isso pesa. Talvez seja a hora das empresas pequenas darem exemplos para as maiores. Seja furtivamente ou no combate direto, Winter Ember será capaz de entreter quem apreciar esse estilo de jogo, mas talvez seja melhor esperar uma leve promoção, em tempos de jogos com preços elevados, é necessário esperar e escolher bem sua próxima aventura.

Este texto foi feito com base na cópia cedida pela Blowfish Studios agradecemos a confiança em nossa equipe.

 

Nota
PONTUAÇÂO GERAL
6
Winter Ember fecha com um saldo balanceado, nem impressiona o suficiente para ser inesquecível, nem irrita o tanto necessário para ser duramente criticado, é o tipo de game que pode ser adquirido e jogado quando for a hora de sair dos AAA massivos e dos grandes alvos da mídia, diverte na medida certa o que convenhamos, está em falta em jogos que focam apenas em suas complexas e cinematográficas narrativas.analise-de-winter-ember-no-inverno-a-vinganca-e-servida-ainda-mais-fria